terça-feira, agosto 29, 2006

Tom Wolfe


John Carter nomeou Noyce director-geral de toda a divisão, a Fairchild Semiconductor, que se tornara subitamente um dos novos empreendimentos mais falados do mundo empresarial. A NASA escolheu os circuitos integrados de Noyce para os primeiros computadores que os astronautas utilizariam a bordo das suas naves (no programa Gemini). Depois disso, começaram a chover as encomendas. Em dez anos, as vendas da Fairchild aumentaram de uns poucos milhares de dólares por ano para 130 milhões e o número de empre­gados cresceu do primitivo grupo de duendes para doze mil. Como director­-geral, Noyce teria agora de se haver com uma questão que Shockley abordara prematura e desajeitadamente, a saber, a de novas técnicas de gestão para esta nova indústria.

Um dia John Carter veio a Mountain View para ver de perto a empresa de semicondutores de Noyce. O escritório de Carter em Syosset, Long Island, pôs-lhe uma limusina com condutor às ordens durante a sua estadia na Califórnia. Por conseguinte, John Carter chegou ao barracão de cimento tilt-up de Mountain View no banco de trás de uma limusina Cadillac preta com um condutor à frente envergando uma farda de motorista completa: fato preto, camisa branca, laço preto e boné preto. Isso só por si bastou para fazer voltar cabeças na Fairchild Semiconductor. Nunca ninguém tinha ali visto uma limusina e um motorista. Não foi isso, porém, que gravou o dia na memória de todos. Foi o facto de o motorista ficar lá fora durante quase oito horas, sem fazer nada. Ficou lá fora com a sua farda, com o seu boné posto, no assento da frente da limusina, sem fazer nada a não ser esperar por um homem que estava algures lá dentro. John Carter estava lá dentro a divertir-se à grande como director executivo. Visitou as instalações, fez reuniões, examinou números, assentiu de satisfação e irradiou o seu urbano encanto de Director Executivo Prodígio da Rua Cinquenta e Sete. E o motorista passou todo o dia sentado lá fora em­brenhado na tarefa de suportar um boné com a cabeça. As pessoas começaram a abandonar as bancadas de trabalho e a assomar às janelas da frente só para darem uma vista de olhos àquele fenómeno, tão insólito ele se afigurava. Eis ali um servo que não fazia nada o dia inteiro a não ser esperar à porta a fim de estar imediatamente às ordens dos quadris do seu amo, quando quer que aque­les quadris, a pança e a queixada decidissem reaparecer. Não era simplesmente o facto de aquela pequena espreitadela à alta-roda do meio empresarial ao jeito de Nova lorque ser incomum naquelas colinas castanhas de Santa Clara Valley. É que aquilo parecia terrivelmente mal.

Um certo instinto que Noyce tinha relativamente a esta nova indústria e às pessoas que nela trabalhavam principiou a assumir os contornos de um conceito. As empresas do Leste adoptaram uma filosofia feudal da organização, sem sequer se aperceberem. Havia reis e nobres, como havia vassalos, solda­dos, alabardeiros e servos, com camadas de protocolo e mordomias, tal como o automóvel e o motorista, para simbolizarem superioridade e estabelecerem as linhas de demarcação. Lá no Leste os directores executivos tinham gabinetes forrados a madeira trabalhada, lareiras falsas, escrivaninhas, bergères, livros encadernados a pele e quartos de vestir, como uma suite num solar baronil. A Fairchild Semiconductor precisava de uma estrutura operacional rígida, particularmente neste período de rápido crescimento, mas não precisava de uma estrutura social. Aliás, não poderia haver coisa pior. Noyce apercebeu-se de como detestava o sistema empresarial do Leste de classe e posição, com as suas intermináveis gradações, encimadas pelos directores executivos e vice-presidentes que organizavam a sua vida diária como se fossem uma corte e uma aristo­cracia empresariais. Rejeitava a ideia de uma hierarquia social na Fairchild.

Para além de não ir haver limusinas e motoristas, nem sequer haveria luga­res de estacionamento reservados. O trabalho iniciava-se às 8 da manhã para todos sem excepção e o regime de prioridade para quem chegasse primeiro ao parque de estacionamento aplicar-se-ia a Noyce, Gordon Moore, Jean Hoerni e todos os restantes. «Se chegarem tarde», gostava de dizer Noyce, «terão que estacionar lá para os quintais». E não ia haver gabinetes tipo suite baronil. O armazém embelezado da Charleston Road estava dividido em comparti­mentos de trabalho e umas quantas fiadas de atravancados gabinetes-cubículo. Os cubículos nunca eram beneficiados. A decoração mantinha-se Armazém Embelezado e as portas estavam sempre abertas. Noyce, o administrador prin­cipal, passava metade do tempo no laboratório fosse como fosse, envergando a sua bata branca. Noyce ia para o trabalho de casaco e gravata, mas não tar­dava a despir o casaco e tirar a gravata, e isso era bem aceite a qualquer outra pessoa da empresa. Não existiam quaisquer regras em termos de vestuário, a não ser algumas tácitas. A indumentária devia ser recatada, tanto no sentido social como no sentido moral. Na Fairchild não havia fatos de trespasse às listas e gravatas de xadrez preto e branco. Vestir bem, com elegância, à moda ou de modo a chamar a atenção era um deslize social. Andar mal vestido não era um pecado. A ostentação, sim.

(...)

Para onde quer que fossem, os emigrados da Fairchild levavam consigo a abordagem de Noyce. Não bastava fundar uma empresa; tinha de se criar uma comunidade, uma comunidade na qual não houvesse distinções sociais, a polí­tica era a da prioridade a quem chegasse mais cedo ao parque de estaciona­mento e esperava-se que toda a gente interiorizasse os objectivos comuns.

A atmosfera das novas empresas era tão democrática, que sobressaltava os empresários do Leste. Um prodígio qualquer de cinquenta e cinco anos com a papada a sobressair levemente do colarinho branco F. R. Tipler de largura modificada e gravata de seda de padrão de tear telefonava da GE ou da RCA a dizer: «Daqui fala Harold B. Thatchwaite,» e a secretária de vinte e três anos do outro lado da linha, em Silicon Valley, dizia com uma daquelas vozes loiras do sol e de olhos azul-claro da Califórnia: «É só um momento, Hal, o Jack já o atende.» E, mal ele chegava à Califórnia e se encontrava pela primeira vez com Jack, ei-lo ali, o director executivo em pessoa, com os seus trinta e três anos de idade, sem casaco, sem gravata, apenas com um camisa de xadrez, calças de caqui e um par de mocassins de costuras reviradas do tamanho de cabos de bateria. Evidentemente, os primeiros sons que saíam da boca de Jack eram: «Viva, Hal.»

Estava-se na década de 1960 e as pessoas do Leste ouviam falar imenso dos praticantes de surf da Califórnia, dos ciclistas, dos proprietários de carros mo­dificados e proprietários de carros personalizados da Califórnia, dos hippies e dos manifestantes políticos da Califórnia, e a imagem que tinham era de jovens de jeans e T-shirts que eram descontraídos, espontâneos, impulsivos, emotivos, sensuais, indisciplinados e irritantemente orgulhosos disso. Por conseguinte, estas empresas de semicondutores de Silicon Valley, com os seus directores executivos vestidos como supervisores de acampamento, davam-lhes a ideia de serem as versões empresariais da mesma coisa.

Não podiam estar mais enganados. A nova raça de Silicon Valley vivia para o trabalho. Eram disciplinados ao ponto de ter espasmos nas costas. Trabalha­vam horas a fio e continuavam a trabalhar no fim-de-semana. Deixavam-se empolgar com as suas empresas como dantes acontecera às pessoas nos dias florescentes da indústria automóvel. Em Silicon Valley um jovem engenheiro ia para o trabalho às oito da manhã, trabalhava mesmo durante a hora do almoço, saía da fábrica às seis e meia ou sete, voltava para casa, brincava meia hora com o bebé, jantava com a mulher, ia para a cama com ela, dava-lhe uma penachada rápida e a seguir levantava-se, deixava-a ali às escuras e punha-se a trabalhar à secretária durante duas ou três horas numas «coisitas que tive de trazer para casa».

Também podia sair da fábrica e resolver ir tomar um copo ao Wagon Wheel antes de ir para casa. Todos os anos havia um sítio - o Wagon Wheel, o Chez Yvonne, o Rickey's, o Roundhouse -, onde os elementos daquela esotérica confraria, os jovens de ambos os sexos da indústria dos semicondutores, se dirigiam depois do trabalho para beberem um copo, mexericarem, bazofiarem e trocarem histórias profissionais acerca de flutuações de fase, circuitos-fan­tasma, memórias de bolha, sequências de fase, contactos antichoque, burst modes, comprovações selectivas por saltos, junções p-n, modos de doença do sono, episódios de morte lenta, RAMs, NAKs, MOSes, PCMs, programadores de PROMs e teramagnitudes, o que queria dizer múltiplos de um milhão de milhões. Por conseguinte não chegava a casa antes das nove, o bebé já estava a dormir, o jantar estava frio e a mulher gélida e ele ficava para ali especado com as mãos em concha como se estivesse a fazer uma bola de neve imaginária e tentava explicar-lhe tudo... enquanto o seu espírito enveredava por outros temas, LSIs, VLSIs, fluxo alfa, de-resolução, polarizações directas, sinais para­sitas e aquela sujeitinha terasexy da Signetics que tinha conhecido no Wagon Wheel, que entendia essas coisas.

Não era grande modo de vida para os casamentos. Nos finais dos anos 1960 a taxa de divórcios parecia tão elevada à gente do ramo como a das cida­des de crescimento-relâmpago da NASA, Cocoa Beach, na Florida, e Clear Lake, no Texas, onde outros jovens engenheiros se entregavam a uma nova tecnologia como se fosse uma missão religiosa. Da segunda vez tinham ten­dência para os «intramatrimónios». Casavam com mulheres que trabalhavam em empresas de Silicon Valley e que haviam de compreender e até aprender a viver com as suas obsessões de vinte e quatro horas. Em Silicon Valley um engenheiro estava sob pressão para reinventar o circuito integrado de seis em seis meses. Em 1959 o invento de Noyce tinha possibilitado a colocação de todo um circuito eléctrico num chip de silício do tamanho de uma unha. Em 1964 tinha de se saber como colocar dez circuitos num chip desse tamanho só para entrar no jogo, e a parada estava continuamente a subir. Daí a seis anos o número era de um milhar de circuitos num único chip; daí a outros seis se­riam trinta e dois mil... e toda a gente dizia que a verdadeira lança em África seriam sessenta e quatro mil.

Tom Wolfe, Hooking Up, Um Mundo Americano, Publicações Dom Quixote (2001), p. 40 (tradução de J. Teixeira de Aguilar)

segunda-feira, agosto 28, 2006

Tunísia

Sousse

Monastir

segunda-feira, julho 24, 2006

Michel Houellebecq


Solidão a dois é o inferno consentido. Na vida do casal, na maior parte das vezes, existem desde o início certos pormenores, certas discordâncias sobre as quais as pessoas decidem calar-se, na entusiástica certeza de que o amor acabará por resolver todos os problemas. Estes pro­blemas crescem aos poucos, em silêncio, antes de explodirem, alguns anos mais tarde, e de destruírem toda a possibilidade de vida comum. Desde o início, Isabelle preferira ser possuída por trás; sempre que eu tentava outra abordagem, ela começava por aceitar, mas depois voltava-se, quase involuntariamente, num tre­jeito de riso embaraçado. Ao longo dos anos, eu atribuíra esta pre­ferência a uma particularidade anatómica, uma inclinação da vagi­na ou fosse o que fosse, enfim, uma dessas coisas de que os homens não podem, não obstante a melhor das vontades, tomar exactactamente consciência. Seis semanas depois da nossa chegada, estáva­mos nós a fazer amor (eu penetrava-a, como habitualmente, por trás, mas havia um grande espelho no nosso quarto), apercebi-me de que, ao aproximar-se do orgasmo, Isabelle fechava os olhos, e só os abria muito tempo depois, uma vez terminado o acto.

Pensei no caso durante toda a noite, enquanto ingeria duas gar­rafas de um brandy espanhol razoavelmente infecto: revi os nossos actos de amor, as cenas de ternura, todos os momentos que nos haviam unido: ela desviava sempre o olhar, ou fechava os olhos, e comecei a chorar. Isabelle deixava-se fruir, fazia-me fruir, mas não gostava da fruição, não gostava dos sinais da fruição; não gosta deles em mim, e com certeza ainda menos nela própria. Tudo concordava: sempre que a vira deliciar-se diante da expressão da beleza plástica fora por causa de pintores como Rafael, e sobretudo Botticelli: por vezes emocionada, mas frequentemente fria, sempre muito calma; ela nunca compreendera a admiração absoluta que eu votava a Greco, nunca apreciara o êxtase, e eu chorei muito porque esta faceta animal, esta entrega ilimitada ao prazer e ao êxtase era o que eu desejava para mim mesmo, enquanto votava desprezo à minha inteligência, à minha sagacidade, ao meu humor. Nunca conheceríamos o olhar baço, infinitamente misterioso, do casal unido na felicidade, aceitando humildemente a presença dos órgãos, e a felicidade mitigada; nunca seríamos verdadeiros amantes.

Michel Houellebecq, A Possibilidade de Uma Ilha, Dom Quixote, p. 61 (tradução de Isabel St. Aubyn)

sexta-feira, julho 21, 2006

Barry Guifford



A História de Reader

- Alguma vez viste aquele filme do Errol Flynn, Objectivo Burma? - perguntou Sailor.

Lula estava sentada numa cadeira a pintar as unhas dos pés.

- Que me lembre, não - respondeu.

- Durante a Segunda Guerra Mundial - disse Sai­lor. - Flynn e um grupo de soldados tão a preparar-se para saltar de pára-quedas em plena selva, perto de Man­dalay ou coisa parecida e um dos tipos pergunta a Flynn: «e se o meu pára-quedas não abrir?» E o Flynn responde: «Bem, nesse caso, és o primeiro a chegar ao chão».

Lula deu uma gargalhada. - Ele era muito giro ­disse ela -, apesar de ter bigode! Nunca fui ligada em barbas e bigodes, a não ser que um tipo seja tão feio que a barba sirva p'ra lhe tapar a cara toda.

Sailor levantou-se da cama e começou a vestir-se.

- Vamos comer qualquer coisa, amendoim - disse. - Tou pronto.

- Primeiro, as unhas têm de secar, Sailor. Conta­-me uma história enquanto esperamos.

- Que tipo de história, querida?

- Qualquer coisa que tu contes me interessa - res­pondeu Lula. - Tu sabes.

- Tu, realmente, és tão gira que és um perigo, querida - disse Sailor. - Tenho de o admitir.

Lula deu uma risadinha e estendeu-se na cama, dei­xando os pés pendurados para fora.

Sailor sentou-se numa cadeira ao pé da janela. Via nitidamente as ondas de calor a espraiarem-se pela rua abaixo.

- Lá em Pee Dee conheci um gajo chamado Rea­der O'Day - disse ele. - O gajo foi dentro, porque apagou a tipa com quem vivia. Apanhou dezassete anos por homicídio de 2º grau.

- Que raio de nome é esse? Reader? [1]- pergun­tou Lula.

- Puseram-lhe esta alcunha porque lê à brava. Que me lembre, nunca cheguei a saber qual era o seu nome de baptismo. Tá sempre a ler livros que a família lhe manda. Ele andou na Universidade. E agora, com qua­renta e sete anos, ainda lê livros.

- É espantoso - disse Lula. - Quer dizer, deve ser muito raro num criminoso.

- Durante muito tempo andou a ler livros dum gajo francês que já morreu. Disse-me que todos os livros daquele gajo eram partes dum mesmo livro, chamado Rememberin'Things Past.[2] Parece-me que era este o título. O que é giro, é que segundo o Reader, o autor teve a ideia p'ra escrever aquilo tudo, quando tava a comer um biscoito.

- Um biscoito?

- Pois. O tal francês tava a comer um biscoito e uma porrada de lembranças inundou-lhe o cérebro e então ele escreveu-as. O Reader contou-me que ele tava bas­tante doente e que esteve sempre a escrever até morrer, mesmo até ao último momento.

- Porque é que o Reader aviou a patroa? - per­guntou ela.

Sailor abanou a cabeça e soltou um assobio baixi­nho, por entre os dentes.

- Isso é uma história do caraças - disse ele. ­

Parece que tinham uma filha que não se dava bem com a mãe e o Reader foi aguentando a mulher por causa da miúda. Dizia ele que a gaja era muito chata com a filha e com ele também. Contou-me que uma vez ela o atacou com um ferro de engomar que tava muito quente e dou­tra vez, com uma moto-serra.

- Parece um daqueles filmes que eu nem vou ver - disse Lula.

- O Reader achou que devia ficar com ela para pro­teger a filha. Durante algum tempo viveram perto de Mor­gan City e ele trabalhou nos campos de petróleo. Quando o negócio do petróleo ficou de pantanas, mudou-se para o Piedmont e trabalhou no tabaco. A gaja trabalhava de vez em quando, como servente de hospital. O Reader dizia que ela era do piorio em Alabama e que ele se tinha juntado com ela numa altura em que andava também um bocado por baixo. No entanto, depois da filha nascer, ele resolveu mudar de vida.

- Ele devia ser de boas famílias? - perguntou Lula. - Afinal de contas, andou na Universidade.

- Parece-me que ele disse que o pai era médico - disse Sailor. - O mais certo era ele ser um desapon­tamento p'rá família, andando por aí, nos campos do petróleo e fazendo trabalhos que qualquer borra-botas pode fazer. Seja como for, a patroa continuou a cha­teá-lo p'ra ele casar com ela, p'rá filha ficar legítima. O Reader não queria ficar amarrado à gaja e disse-lhe que só tava com ela por causa da miúda. Acho que durante uns tempos as coisas tiveram assim, ela a moer-lhe o juízo p'ra se casarem e ele a recusar. Um dia, quando a filha, que nessa altura tinha dez anos, tava na escola ou noutro sítio qualquer, a gaja veio ter com ele com uma espingarda e ameaçou que o matava se ele não casasse com ela. Quando ele a mandou bugiar, ela disparou e quase que lhe acertou. Ele diz que a bala passou a rasar a ore­lha esquerda e se foi enfiar na parede por trás dele. Então ele tirou-lhe a espingarda e perdeu a cabeça.

- Não me digas que disparou contra ela?! - disse Lula.

- Cinco ou seis vezes - respondeu Sailor. – Acho que ele tava tão furioso que ficou ali, a olhar p'ra ela e a disparar até já não ter balas. E foi então que ele fez uma grande asneira.

- Como se enfiar meia-dúzia de balázios na dama não fosse já asneira suficiente - disse Lula.

- Em vez de chamar a polícia e alegar legítima defesa ou homicídio justificável por ter sido levado até à loucura - continuou Sailor -, embrulhou o corpo na cortina do chuveiro e enterrou-o debaixo da casa.

- O que é que ele disse à filha?

- Disse-lhe que a mãe tinha ido de férias, ou qual­quer coisa no género. Deixou a miúda com uns parentes e desandou. Foi p'ra Nova Yorque, Chicago, Las Vegas, p'ra todo o lado. Foi apanhado quando resolveu voltar, p'ra ver a filha.

- Como é que a polícia deu com o corpo?

- Isso é que é o melhor - disse Sailor. – Nunca deu com ele! Pelo menos até o Reader lhes dizer onde é que o tinha enterrado. Eles avançaram com o caso e processaram-no, unicamente com base em provas circuns­tanciais. A meio do julgamento, quando o Reader pen­sava que aquilo ia ser canja, intimaram a mãe dele a depor como testemunha e quando ela recusou, engavetaram-na. Ela era uma velhota doente e não aguentou mais duma semana. Quando a soltaram, admitiu que o filho já tinha dito antes que havia de matar a mulher. O Reader, quando depôs, contou que a mulher, com quem vivia, o atacara primeiro e que tinha sido ferida acidentalmente, quando tinham lutado pela posse da arma. Disse-lhes onde é que o corpo estava enterrado e quando o desenterraram des­cobriram que tava cheio de buracos à queima-roupa. Esta descoberta e o facto de ele se ter posto a andar, não lhe fizeram bem nenhum. O júri já tava com pouca vontade de alinhar com a história dele. Ele disse-me que a maio­ria dos membros do júri eram mulheres e que, quando ele disse em tribunal que ela ficava danada sempre que levava porrada, quase que o linchavam ali mesmo. Acho que o Reader deve ter sido o tipo mais porreiro que conheci em Pee Dee. As tuas unhas já secaram, amendoim?



[1] Leitor – N.T.

[2] Referência a Em busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust – N.T.


Barry Gifford, Coração Selvagem (Wild at Heat), Quetzal, p. 139.

sexta-feira, julho 14, 2006

Bill Evans Trio Gloria's Step


BILL EVANS TRIO - 1972, from NJ Public TV
(with Eddie Gomez,
Marty Morell) performing Gloria's Step

quinta-feira, julho 13, 2006

Miles Davis & John Coltrane- SO WHAT

A quinta-essência do jazz

quarta-feira, julho 12, 2006

Poe


Alone

From childhood's hour I have not been
As others were - I have not seen
As others saw - I could not bring
My passions from a common spring -
From the same source I have not taken
My sorrow - I could not awaken
My heart to joy at the same tone -
And all I lov'd - I lov'd alone -
Then - in my childhood - in the dawn
Of a most stormy life - was drawn
From ev'ry depth of good and ill
The mystery which binds me still -
From the torrent, or the fountain -
From the red cliff of the mountain -
From the sun that 'round me roll'd
In its autumn tint of gold -
From the lightning in the sky
As it pass'd me flying by -
From the thunder, and the storm -
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view -

Edgar Allan Poe: Poems



sexta-feira, junho 30, 2006

Nick Drake


River Man

Betty came by on her way
Said she had a word to say
About things today
And fallen leaves.

Said she hadn't heard the news
Hadn't had the time to choose
A way to lose
But she believes.

Going to see the river man
Going to tell him all I can
About the plan
For lilac time.

If he tells me all he knows
About the way his river flows
And all night shows
In summertime.

Betty said she prayed today
For the sky to blow away
Or maybe stay
She wasn't sure.

For when she thought of summer rain
Calling for her mind again
She lost the pain
And stayed for more.

Going to see the river man
Going to tell him all I can
About the ban
On feeling free.

If he tells me all he knows
About the way his river flows
I don't suppose
It's meant for me.

Oh, how they come and go
Oh, how they come and go
Riverman by Nick Drake

segunda-feira, abril 17, 2006

Semana Santa (2)

Semana Santa (1)

Martin Amis



Assim que voltámos para Espanha entrámos no torvelinho da escola - em Palma. Este estabelecimento, dirigido por um pedante teatral formado em Yorkshire, era simples e cosmopolita e, sobretudo, misto, corria as filhas de homens de negócios e diplomatas: raparigas maravilhosas, aterradoras e inconcebivelmente distantes. Fascista e católica, a Espanha mostrava não obstante um laxismo considerável para com os jovens e Philip e eu começávamos a apreciar as novas liberdades. A minha mãe acalmou-nos com motas todo-o-terreno que estampávamos umas oito vezes ao dia. Podíamos pedir cerveja nos cafés da praça depois da escola; e uma vez, com um amigo, tomámos uma aguardente cada um antes da escola (pelo que passaríamos a ser conhecidos, depois disso, por Los Tres Coñacs). Os cinemas espanhóis não reconheciam o sistema de limitações e nós fomos várias vezes ver um devidamente dobrado Psico. Havia uma rapariga de dezasseis anos que fre­quentemente apanhava connosco o comboio Soller-Palma. Dizendo que era uma experiência, ela beijou-me uma vez na boca com os lábios abertos. Eu pensei: isto é divinal, mas não devia ser para o Philip?

O comboio em que viajávamos tinha um sistema de limitações muito rigoroso. A carruagem de primeira classe era um salão móvel, uma alcova espessamente alcatifada com sofás, quadros e um lustre oscilante. A segunda classe era uma barbearia burguesa de couro, espelhos e estofos. Mas quando viajava sozinho eu escolhia sempre a madeira lisa da terceira, por uma razão que ainda hoje me leva a sentir algo hipócrita. Naquelas carruagens apinhadas, silenciosas, ordeiras havia mais oportunidades de se ver uma coisa que nunca se via no Norte protestante: mães a amamentar. E embora a nuca do bebé parecesse bastante bem, tenho que confessar que a parte de que eu gostava era o antes e o depois. Mais ninguém olhava; mais ninguém reparava. Num país em que as turistas de biquini eram presas à ponta das armas, havia ainda esta nudez virtuosa, invisível para todos menos para um furtivo jovem estrangeiro cujos pensamentos já não eram puros.

O meu irmão e eu estávamos a passar por todo o inferno de nos transformarmos em homens, mas tínhamos deixado de nos sentir profundamente infelizes. Numa entrevista posterior, ao falar desta época, Kingsley disse que em parte devia a sua sobrevivência ao perdão dos seus filhos. No entanto o perdão, no sentido da reaceitação total, nunca esteve em dúvida. Philip e eu sabíamos já que o nosso pai, embora já não estivesse connosco, embora já não casado com a nossa mãe, era ainda o nosso pai.

No fim da Primavera voltámos a Inglaterra. A partir daí foi só cidade, só Londres e só experiência.

Martin Amis, experiência, Teorema, p. 170 (tradução de Telma Costa)

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

James Ellroy


Em 1958, EI Monte era o grande chamariz do vale. Os primeiros colonos chamaram-lhe «o Fim da Rota de Santa Fé». Era uma cidade mexida e um bom sítio de diversões. Os colonos recentes chamavam-lhe «a Cidade das Divorciadas». Um sítio pitoresco, uma cidade de província típica do Oeste.

A população era de cerca de 10 000 habitantes, 90 % brancos e 10 % mexicanos. A cidade tinha cinco milhas quadradas e fazia fronteira com os baldios do condado.

A população aumentava nas noites de sábado. Gente de fora acorria a espreitar os bares de Valley e Garvey. O clube do EI Monte Legion apresentava o Cliffie Stone e bandas de província ­transmitidos ao vivo num canal de TV.

A assistência vestia-se à cowboy: homens de calças justas e chapéus de feltro de abas largas, mulheres de saias armadas e engomadas. O clube organizava bailaricos nos sábados em que o Cliffie fazia folga. Pachucos e punks brancos esmurravam-se regularmente no parque de estacionamento.

A auto-estrada de San Berdoo passava por EI Monte. Os motoristas desviavam para a Valley Boulevard em direcção a leste. Paravam para comer no Stan's Drive-In e no Hula-Hut. Paravam para beber no De­sert Inn, no Playroom e no Horseshoe. Valley era o sítio de paragem obrigatório de sábado à noite. Os motoristas que seguiam para leste acabavam por se demorar por lá, quer tencionassem, quer não.

A acção terminava em Five Points - o cruzamento entre Valley e Garvey. O Stan's e o Playroom usufruíam de uma localização privilegiada na esquina nordeste. O Crawford's Giant Country Market ficava do outro lado da rua. Uma dúzia de restaurantes e tabernas aglomeravam-se junto do cruzamento.

A zona residencial de EI Monte ficava a norte, a sul e a oeste. As casas eram pequenas e dividiam-se em duas modalidades: imitação de rancho e cubo caiado de branco. Os mexicanos estavam isolados numa zona chamada Medina Court e num bairro de lata chamado Hicks Camp.

Medina Court estendia-se por três quarteirões de casas feitas de cimento e bocados de madeira recolhidos no lixo. Hicks Camp ficava logo do outro lado dos carris da Pacific-Electric e apresen­tava casas com chãos de terra e madeira arrancada a vagões antigos.

O filme Carmen Jones foi rodado em Hicks Camp em 1954. Uma favela mexicana passou por uma favela de negros das planta­ções. Os cenógrafos não tiveram de alterar um único pormenor.

Os bêbedos e drogados pululavam em Medina Court e Hicks Camp. Um modo de homicídio predilecto em Hicks Camp era embebedar a vítima e deitá-la sobre os carris para que um comboio de mercadorias a decapitasse.

O Departamento da Polícia de EI Monte comandava os carros­-patrulha e investigava todos os crimes que não envolvessem homicídios. A lista do pessoal era de vinte e seis polícias, uma guarda prisional e um controlador de parquímetros. O Departamento tinha uma reputação relativamente limpa. Os comerciantes locais abona­vam os rapazes de produtos alimentares e licor. Os polícias de EI Monte iam sempre às compras de uniforme.

Os homens faziam as rondas sozinhos no carro. O ambiente de trabalho era amistoso - capitães e tenentes bebiam com simples bestas matarroanas. A Polícia era uma profissão de alternativas ­podia-se ajudar as pessoas, ou espancar os imigrantes mexicanos ilegais, ou engatar as meninas, de acordo com as tendências de cada qual.

Os rapazes usavam uniformes de caqui e conduziam viaturas de serviço Ford de 1956. Apreendiam carros, que negocia­vam com os representantes locais, e armavam zaragata com os Serviços do Xerife por dá cá aquela palha. Metade dos homens alistava-se num sistema de clientelismo. Metade entrava pelo serviço civil.

O Departamento da Polícia entregava os seus crimes de morte à Divisão de Homicídios do Xerife. Para uma cidade violenta e agita­da, tinham tido muito poucos homicídios.

Duas mulheres com aspecto de fufas mataram um pintor de casas de El Monte a 30 de Março de 1953. O homem chamava-se Lincoln F. Eddy.

Eddy e Dorothea Johnson tinham estado todo o dia a beber em vários bares de El Monte. Passaram por casa de Eddy ao fim da tarde. Eddy obrigou Miss Johnson a fazer-lhe um broche. Miss Johnson foi para casa e discutiu o assunto com a sua roommate, Miss Viola Gale. As mulheres pegaram numa espingarda e dirigi­ram-se para casa de Eddy.

Mataram Lincoln Eddy. Dois rapazes que brincavam à apanhada na rua viram-nas entrar e sair. Foram presas na manhã seguinte. Foram julgadas e condenadas a longas penas de prisão.

No dia 17 de Março de 1956, Mr. Walter H. Depew entrou com o carro na parede da frente do Ray's Inn na Valley Boulevard.

Dois homens foram atropelados e mortos. A dianteira do carro arrancou um pedaço de 5,5 m da parede da frente e um pedaço de 6 m da parede de trás. Vários outros clientes do bar ficaram feridos.

Mr. Depew tinha estado a beber no Ray's Inn, onde a sua mulher era empregada de balcão. Mr. Depew discutira com o proprietário, que o expulsara algumas horas antes do incidente.

Mr. Depew foi preso imediatamente. Foi julgado e condenado a uma curta pena de prisão.

A Divisão de Homicídios do Xerife tomou conta de ambas as ocorrências. Os seus últimos três homicídios de EI Monte tinham sido resolvidos em tempo record.

O caso Jean Ellroy já se arrastava há mais tempo.

James Ellroy, O Meu Quarto Escuro, Editorial Notícias (tradução de Margarida Vale de Gato), p. 30

terça-feira, janeiro 24, 2006

sábado, dezembro 31, 2005

Vasco Graça Moura


porque hoje termina mais um ano

porque hoje termina mais um ano
com seus surdos rumores, pouca luz
e porque o tempo treme e é no inverno
e é no inverno que a arte nos ilude

e porque a arte é por demais injusta
e o tempo transgrediu os seus limites
e ambos vivem só de se imitarem
digo que nunca errou a juventude

porque a arte é o princípio da morte e nem
(e nem sempre) teremos a coragem
a consciência ou o rigor bastantes
para tocá-las na sua ressonância

Vasco Graça Moura, Antologia dos Sessenta Anos, Edições ASA, 2002, p. 19.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

L'Homme au verre de vin



L'Homme au verre de vin

numa sala do louvre dedicada à
pintura espanhola há um quadro
atribuído à escola portuguesa
de quatrocentos. é o

homem do copo de vinho, ou, dir-se-ia,
do copo de solidão; e é possível
que seja flamengo e triste. mas tomemos
a origem indicada como boa

para esse homem que vai entrar na noite,
gravemente na noite, como numa
parda natureza. eu nunca pude
obter um slide dessa imagem,

um bilhete-postal, ou quaisquer dados
para situar aquela estranha placidez
de quem vai encontrarno vinho umas verdades, de
alguém que vou visitar de vez em quando,

para beber um copo em companhia.
é possível que fosse na flandres
algum feitor discreto e rico ou que em lisboa fosse

segurando uma alcachofra minuciosa
que o pintor depois terá mudado
para tornar mais intenso o sentimento
ou mais real a sua digna sede.

Vasco Graça Moura, Antologia dos sessenta anos, Edições ASA, 2002, p. 37.

domingo, dezembro 25, 2005

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Jerome K. Jerome


A NOSSA FESTA DE FANTASMAS

Era Véspera de Natal.

Começo desta maneira porque é a maneira correcta, ortodoxa e respeitável de começar, e eu fui educado de uma maneira correcta, ortodoxa e respeitável, tendo sido ensinado a agir sempre de uma forma correcta, ortodoxa e respeitável - e nunca mais perdi esse hábito.

Claro que, diga-se de passagem, é perfeitamente desnecessário mencionar a data. O leitor experiente não precisa que eu lhe diga que era Véspera de Natal. É sempre Véspera de Natal numa história de fantasmas.

A Véspera de Natal é a grande noite de gala dos fantasmas, a sua festa anual. Na Véspera de Natal, toda a gente que é alguém na Terra dos Fantasmas - ou antes, falando-se de fantasmas, dever-se-ia dizer, suponho, toda a gente que é ninguém - aparece para se mostrar, para ver e ser visto, para se passear e exibir aos outros as mortalhas coleantes e as roupas com que foram para o túmulo, para criticar o estilo e desdenhar do aspecto uns dos outros.

O «Desfile da Véspera de Natal», como penso que eles próprios lhe chamam, é uma cerimónia sem dúvida primorosamente preparada e ansiada por todos os habitantes da Terra dos Fantasmas, especialmente pelo grupo dos elegantes, como os Barões assassinados, as Condessas vitimadas e os Condes que vieram com o conquistador e assassinaram os seus familiares, morrendo loucos.

Podemos estar certos de que treinam energicamente gemidos profundos e esgares demoníacos. Provavelmente ensaiam durante semanas gritos horripilantes e gestos de gelar o sangue. As correntes ferrugentas e punhais ensanguentados são inspeccionados e postos a funcionar convenientemente e os lençóis e mortalhas, cuidadosamente postos de lado desde a festa do ano anterior, são retirados, sacudidos, remendados e arejados.

Oh, a noite de 24 de Dezembro é uma noite excitante na Terra dos Fantasmas!

Os fantasmas nunca aparecem na Noite de Natal propriamente dita, como devem ter reparado. Provavelmente, a Véspera de Natal foi de mais para eles, não estão habituados a divertirem-se. Durante cerca de uma semana após a Véspera de Natal, os cavalheiros fantasmas sentem-se, com toda a certeza, muito responsáveis e passeiam­-se de um lado para o outro tomando a resolução solene de ficarem em casa na Véspera de Natal seguinte; por seu lado, as damas es­pectros mostram-se incoerentes e petulantes e, sem nenhuma razão aparente, dadas a rebentar em lágrimas e a abandonar a sala apres­sadamente mal alguém lhes dirige a palavra.

Os fantasmas sem qualquer posição a manter - meros fantasmas de classe média - de vez em quando, penso eu, fazem algumas assombrações nas suas noites de folga: na Noite das Bruxas e no solstício de Verão, e alguns deles chegam mesmo a participar em acontecimentos muito específicos - por exemplo, para celebrar o aniversário do enforcamento do avô de alguém ou para vaticinarem uma desgraça.

O vulgar fantasma britânico gosta mesmo de agoirar. Mandem-no profetizar uma desgraça a alguém e ele sentir-se-á feliz. Deixem-no forçar a entrada numa casa pacífica e pô-la de pernas para o ar por ter previsto um funeral, ou uma bancarrota ou por ter dado a entender que uma desgraça se aproximava ou qualquer outro desastre terrível, acerca do qual ninguém no seu perfeito juízo quereria saber mais cedo, e cujo conhecimento não tem qualquer utilidade, e logo ele sente que junta o útil ao agradável. Nunca perdoaria a si próprio se alguém da sua família tivesse algum problema e ele não tivesse lá estado alguns meses antes, brincando no relvado ou balan­çando-se na grade da cama de qualquer pessoa. Depois, há os fan­tasmas muito novos, ou muito conscienciosos (sentem na consciência o peso de um testamento perdido ou de um número ainda não descoberto) e que passam o ano todo a fazer assombrações; e há também o fantasma niquento, indignado por ter sido enterrado no caixote do lixo ou no lago da aldeia, e que nunca dá uma única noite de sossego aos paroquianos até alguém lhe pagar um funeral de primeira classe.

Mas estes são excepções. Como disse, o fantasma normal e tra­dicional só faz a sua aparição uma vez ao ano, na Véspera de Natal, e fica satisfeito.

Porquê na Véspera de Natal, entre todas as noites do ano, é algo que nunca consegui perceber, pois é, invariavelmente, uma das mais desanimadoras noites para andar na rua - está frio e há lama e chuva por toda a parte. Para além disso, tenho a certeza de que na época de Natal todas as pessoas já estão suficientemente ocupadas numa casa cheia de parentes vivos e não querem os fantasmas dos parentes mortos a vaguear por ali.

Deve haver algo de fantasmagórico na atmosfera do Natal, algo relacionado com a atmosfera pesada, quente e húmida e que atrai os fantasmas, tal como a humidade das chuvas de Verão faz aparecer os sapos e os caracóis.

E não são só os fantasmas que aparecem sempre na Véspera de Natal: os vivos falam sempre deles na Véspera de Natal. Sempre que cinco ou seis pessoas que falem inglês se sentam à lareira na Véspera de Natal, começam logo a contar histórias de fantasmas. Nada nos satisfaz mais na Véspera de Natal do que ouvir contar anedotas autênticas sobre espectros. É uma época fantástica e festiva e nós adoramos pensar em campas, cadáveres, assassínios e sangue.

Há muitas coisas parecidas nas nossas experiências fantasma­góricas, mas claro que a culpa disso cabe apenas aos fantasmas, que nunca experimentam truques novos e se ficam sempre pelos antigos e garantidos; como consequência, depois de participarmos numa festa na Véspera de Natal e de ouvirmos seis pessoas relatarem as suas aventuras com espíritos, nunca mais precisaremos de ouvir mais histórias de fantasmas. Escutar mais histórias de fantasmas depois disso seria como assistir a duas comédias ridículas ou ler dois jornais cómicos - a repetição seria cansativa.

Há sempre o jovem que certo ano foi passar o Natal numa casa de campo e que na Véspera de Natal foi posto a dormir na ala oci­dental. Então, a meio da noite, a porta do quarto abre-se silencio­samente e alguém - geralmente uma senhora em camisa de dormir - entra devagar e senta-se na cama. O jovem pensa que deve ser uma das visitas ou algum parente da família, embora não se lembre de alguma a vez a ter visto; julga que ela não conseguia adormecer e que, sentindo-se sozinha e desamparada, veio ao quarto dele para conversar. Não faz a mínima ideia de que se trata de um fantasma: é tão ingénuo. No entanto, ela não fala; e quando ele volta a olhar. já ela desapareceu!

Quando o jovem relata o acontecimento ao pequeno-almoço na manhã seguinte, perguntando às senhoras presentes se fora alguma delas, todas asseguram que não; o anfitrião, pálido, suplica-lhe que não fale mais do assunto, e o jovem acha que é um pedido estranho,

Depois do pequeno-almoço, o anfitrião leva o jovem para um canto e explica-lhe que o que ele viu foi o fantasma de uma senhora que tinha sido morta ou que assassinara alguém naquela mesma cama - não interessa muito qual das duas situações: pode-se ser um fantasma por se ter assassinado alguém ou por se ter sido morto, é como preferirem. O fantasma assassino é talvez o mais popular; mas, por outro lado, as pessoas assustam-se mais com um fantasma de alguém assassinado, que assim pode exibir as feridas e gemer.

Há também o convidado céptico - diga-se de passagem que é sempre o convidado que é levado à certa nestas coisas. Um fantasma nunca presta muita atenção à sua própria família: quem ele gosta de assustar é «o convidado»; este, depois de ter escutado a história de fantasmas contada pelo seu anfitrião na Véspera de Natal, ri-se e diz que não acredita em fantasmas e que para o provar dormirá no quarto assombrado naquela mesma noite.

Toda a gente lhe pede para não ser imprudente, mas ele persiste na sua insensatez e sobe despreocupadamente para o Quarto Amarelo (ou qualquer outra cor que o quarto assombrado possa ter) com uma vela na mão, desejando a todos uma boa noite e fechando a porta.

Na manhã seguinte aparece com cabelo branco, da cor da neve.

Não conta a ninguém o que viu: é demasiado horrível.

Também existe o convidado corajoso: vê um fantasma, sabe que é um fantasma e observa-o enquanto ele entra no quarto e desapa­rece através do lambril; e depois, como o fantasma não dá sinais de querer voltar - e, portanto, não vale a pena ficar acordado -, resolve dormir.

Não diz a ninguém que viu o fantasma para não assustar as pessoas – há quem se assuste tanto com fantasmas -, mas decide esperar pela noite seguinte para ver se a aparição surge de novo.

De facto, aparece de novo; desta vez, levanta-se da cama, veste­-se, penteia-se e segue-o; é então que descobre uma passagem secreta que liga o quarto à adega - uma passagem que certamente fora bastante utilizada nos maus velhos tempos de antanho.

A seguir, temos o jovem que acordou a meio da noite com uma sensação estranha e encontrou o seu tio solteiro e rico aos pés da cama. O tio rico sorri de uma forma estranha e desaparece. O jovem levanta-se imediatamente e olha para o seu relógio: tinha parado às quatro e meia porque se esquecera de lhe dar corda.

No dia seguinte, começa a investigar e descobre que, estranha­mente, o seu tio rico, de quem ele era o único sobrinho, tinha casado com uma viúva com onze filhos às onze e quarenta e cinco precisa­mente, havia apenas dois dias.

O jovem não tenta explicar aquelas estranhas circunstâncias. A única coisa que faz é atestar a veracidade da sua narrativa.

E, para mencionar outro caso, há o senhor que, após um jantar de mações, volta à noite para casa, reparando então numa luz que emergia de uma abadia em ruínas; aproxima-se sorrateiramente e espreita pelo buraco da fechadura, vendo o fantasma de uma «freira cinzenta» beijando o fantasma de um monge castanho; fica tão cho­cado e amedrontado que desmaia imediatamente, sendo descoberto na manhã seguinte caído contra a porta, ainda sem fala e apertando com toda a força na mão a sua fiel chave de casa.

Todas estas coisas acontecem na Véspera de Natal, são todas contadas na Véspera de Natal. Pois, contar histórias de fantasmas numa outra noite que não a de vinte e quatro de Dezembro seria impossível na sociedade inglesa tal como é hoje.

Jerome K. Jerome, ensaio incluso na colectânea Fantasmas para o Natal, Edições ASA, 1998, (tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa), p. 9.

sábado, dezembro 17, 2005

Shepard


INACESSÍVEL LILLIE

Em 1890, bem nos confins do fronteiriço Texas, o juiz Roy Bean apaixonou-se perdidamente por uma fotografia da actriz Inglesa Lillie Langtry, mundialmente conhecida como «The Jersey Lily». Poucas mulheres havia naquela agreste região, para além das cavalheiras todas empoadas e pintadas que costumavam atacar nos acampamentos dos operários que andavam a construir o caminho de ferro do Pacífico Sul. O crime, todo o tipo de crimes, florescia ao longo da fronteira do Rio Pecos e do Rio Grande, e a autoridade legal mais próxima ficava a mais de cento e sessenta quilómetros dali, em Fort Stockton. Os caminhos de ferro e os rangers desesperavam à procura de um árbitro, de modo que nomearam o dono de uma loja da cidade de tendas de Vinegaroon como seu juiz de paz. Roy Bean era um homem de ar severo, pequeno mas encorpado, com uns olhos ligeiramente melancólicos e farta barba branca. A sua natureza autocrática fazia dele o homem perfeito para aquela missão e, ao fim de pouco tempo, a sua palavra era já a lei incontestada a oeste do rio Pecos. Para a aplicar, criou o mais terrível dos castigos - não o enforca­mento, mas a expulsão para aquele vasto deserto adjacente, sem armas, sem dinheiro, sem botas, e, pior do que tudo, sem um cavalo.

Roy Bean tinha um urso preto de estimação chamado Bruno, que costumava ficar preso nos degraus do tribunal improvisado, o qual servia também de salão de bilhar, de saloon e de venda de todo o tipo de géneros. Por vezes, o juiz Bean desmanchava-se em confidências com o seu urso, depois uma rápida sessão no «tribunal», acabando sempre por lhe perguntar se achava que tinha sido feita justiça. Bruno dava uma patada nos degraus poeirentos e resfolegava e o juiz ia embora satisfeito. Subia para a sua carruagem de um só cavalo e desandava para um sítio tranquilo junto ao rio. Aí, à sombra de uma velha alfarrobeira, redigia as suas cartas à inacessível Lillie. Mandava-lhe notícias da fronteira selvagem. Pequenas histórias de todos os dias, sobre homens que tinha condenado por crimes menores como enfiar escorpiões pela blusa de uma prostituta abaixo, ou por crimes maiores como o roubo de cavalos. Dizia-lhe, todo vaidoso, que tencionava organizar um combate de boxe para o título mundial em Rio Grande Sand Flat, à revelia das autoridades americanas e mexicanas e também dos rangers. E mais lhe dizia, dizia-lhe que ele, Roy Bean, se tornara um deus na sua pequena região e que adorava a imagem dela e que ansiava encontrar-se com ela num belo dia de Primavera. De vez em quando, fazia uma pausa na sua escrita, tirava a fotografia já muito gasta do bolso do colete e saboreava o perfil da amada. Os olhos baixos; o poderoso nariz aquilino, não muito diferente do seu; os lábios ligeiramente entreabertos, como que prestes a murmurar o nome dele. Certa vez, chegou mesmo a pensar que tinha ouvido a voz dela. Que a ouvira falar com ele, directamente. Todo o seu corpo empinou de um salto, fazendo com que o cavalo, assustado, partisse à desfilada, e por pouco não perdia a preciosa fotografia para o vento do Texas. E foi assim que Roy Bean escreveu à actriz um sem-número de cartas, sempre no mesmo jeito, como se estivesse em diálogo com ela, como se ela estivesse sentada ali, ao lado dele, no assento da carruagem. Nunca recebeu resposta. Escreveu-lhe que tinha chamado «The Jersey Lily» ao seu tribunal e saloon em honra dela, mas nunca rece­beu resposta. Escreveu-lhe que tinha pendurado sobre o bal­cão do saloon uma reprodução do retrato dela pintado por John Millais, e que tinha decorado os cantos da moldura com flores de cacto. Ele próprio tinha feito a decoração. Escreveu­-lhe que nenhum homem estava autorizado a sentar-se ao bal­cão do saloon, debaixo do retrato dela, sem tirar o chapéu ou a arma. Não recebeu resposta. Por fim, depois de catorze anos de obsessão e nenhum prémio, escreveu-lhe que tinha rebap­tizado a cidade inteira: Langtry, Texas. Isto chamou a atenção dela. Lillie Langtry fez uma pausa momentânea numa digres­são transcontinental. Viajava de comboio, na sua «carruagem­-palácio» privada, a que não faltavam os lustres, os tapetes persas e painéis lacados representando cenas do Oeste Selva­gem. A «Sunset Route» do Pacífico Sul estava agora completa e a linha do caminho de ferro estendia-se desde Nova Orleães até às praias douradas de São Francisco. Lillie desceu da sua carruagem e mal os seus saltos de cetim pisaram as ruas poeirentas de Langtry, informaram-na de que o bom juiz morrera um mês antes. O seu sucessor, contudo, queria oferecer-lhe, em me­mória do saudoso Roy Bean, o martelo de juiz e a espingarda do falecido. Lillie Langtry aceitou o martelo e a espingarda e seguiu viagem.

4/7/94 (LANGTRY, TEXAS)

Sam Shepard, Atravessando o Paraíso, Difel, 1997, (tradução de José Vieira de Lima), p. 107.


sábado, dezembro 10, 2005

Dylan



Uma vez em Nova Iorque, eu e a minha mulher fomos à Rainbow Room, no cimo do Rockefeller Center, para ver o Frank Sinatra Jr. que estava a cantar com uma orquestra inteira. Porquê ele e não alguém do circuito hip? Porque assim não havia complicações e perseguições... sentia alguma afinidade com ele - acho que éramos praticamente da mesma idade e que ele era meu contemporâneo. De qualquer modo, o Frank era um óptimo cantor. Eu nem queria saber se ele era tão bom ou não como o pai - ouvia-se muito bem, e gostava da sua grande e barulhenta banda. Mais tarde veio sentar-se à nossa mesa. Obviamente que o espantara que alguém como eu o tivesse ido ver, mas quando se apercebeu de que eu gostava genuinamente de melodias de grande espectáculo, pôs-se mais à vontade e relaxou, disse que gostava de al­gumas das minhas canções, «Blowin' in the Wind» e «Don't Think Twi­ce», perguntou-me em que tipo de sítios é que eu tocava (eu tinha-me retirado e vivia como um eremita mas não lhe disse isso). Falou sobre o movimento dos direitos cívicos, disse que o pai tinha sido um activista dos direitos cívicos e que tinha lutado sempre a favor dos desprotegidos - que o pai até se sentia um deles. O Frank Jr. parecia bastante esperto, nada de falso, encenado ou pomposo na sua pessoa. Havia legitimidade no que fazia, e sabia quem era. A conversa foi-se fazendo.

- Como é que achas que te sentirias - disse - se descobríssemos que os desprotegidos afinal eram uns filhos da puta?

- Não sei - respondi - provavelmente não muito bem.

Olhando pela parede de janelas tinha-se uma espectacular vista sobre a cidade. Do cimo de sessenta andares, o mundo era diferente.

Passado um bocado, comprei uma flor vermelha para a minha mulher, uma das mais belas criaturas do mundo das mulheres, levantámo-nos, despedimo-nos do Frank e saímos.

Bob Dylan, Crónicas - volume I, Ulisseia (trad. de Bárbara Pinto Coelho), p. 97.