
EXCESSIVO É SER JOVEM
E porque me succedeo em lugar de patria
a Cidade de Coimbra, onde gastei a flor
de minha adolescecia...
FREI AMADOR ARRAIS, Diálogo X
Penso em Coimbra e é este o rumor que me chega: um amanhecer de pássaros, o coaxar das rãs pela noite fora. Entre uma coisa e outra, os noticiários da B.B.C., os quartetos de Beethoven, a comovida e tão desenganada poesia de Oliveira Martins, e as discussões intermináveis, só possíveis quando a juventude é excessiva, e não nos cabe nas mãos um tal ardor. Era a ferocidade brutinha, a nossa guerra pessoal, este demónio da negação instalado no corpo, e tudo servia de pretexto: um verso de Ungaretti, a cor dum seixo, um desenho de Matisse. Havia também as lições de matemática (com poemas de Neruda e Maiakovski à mistura) com o Joaquim Namorado, três vezes por semana. Às nove da manhã batia-lhe à porta, e às vezes ficava o resto do dia na cidade. Dava então um salto ao consultório do Miguel Torga ou procurava o Eduardo Lourenço ou o Carlos de Oliveira. Eram os meus amigos de Coimbra. E havia ainda o David. Lá estava ele à minha espera, à saída da ponte, com os últimos discos que recebera de Lisboa.
- Vamos? Quem é que toca o Brahms? Há ali uma canforeira, anda ver. A primeira vez que vim a Coimbra, o Torga trouxe-me a este jardim, atravessou o canteiro e foi colher uma flor para me dar. Foi por essa flor que comecei a querer-lhe bem. Foi ele que me levou a ler o Oliveira Martins. Tens de começar a lê-lo: o primeiro encontro com este homem é uma fascinação. Algumas das páginas que escreveu sobre o Duque de Coimbra são lindíssimas. O Oliveira Martins tem um fraco por D. Pedro; eu também. Sabes qual é a divisa dele? Desyr. Uma só palavra, que naquele tempo, quando se não era nobre, conviria dizer em segredo, atravessou noites e noites da mais espessa retórica para ser agora a razão mesma, ou o poema, da nossa juventude.
Désir. À mon seul déslr... Lembras-te do juramento que fizeram, ele e o Conde de Avranches, ali na Igreja de Sant'lago? Vamos até lá? «Conde, sabei que eu sinto já a minha alma aborrecida de viver neste corpo, e desejosa de se sair de suas paixões e tristezas. Pois que as coisas me não obedecem, determino morrer e acabar inteiro, e não em pedaços. Pela criação que vos fiz, pela irmandade que comigo mereceste ter na santa e honrada Ordem da Jarreteira, e principalmente pela vossa bondade e esforço, quero saber se no dia em que deste mundo me partir, quereis também ser meu companheiro?» Lembras-te da resposta do Conde? «Sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assim como vo-la tive na vida; e se Deus ordenar que do mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguirá logo a vossa; e se as almas no outro mundo podem receber serviço umas das outras, a minha nesse dia irá acompanhar e servir para sempre a vossa...» Só em Shakespeare é que há coisas assim, não é verdade, David? É estranho: como é que uma paisagem cheia de graça e doçura, feita para o oiro fulvo das abelhas, pode ter sido cenário de tanto e desvairado amor? Pedro, que abriu os olhos a esta luz primeira; por aqui endoideceu de paixão. O Infante D. João, por sinal filho de Pedro e de Inês, levou a exasperação do amor à raiz da carne (a expressão é de Frei Luís de Sousa), e aqui assassinou a formosa Maria Teles - uma punhalada no seio e outra nas virilhas. Com mais razões que Francesca, ela poderia ter dito E 'l modo ancor m'offende. Quanto ao Infante D. Pedro e ao Álvaro Vaz, convenhamos que mesmo entre gente de Cavalaria não são frequentes mortes assim: - «ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu minha alma já tardas...» Em que estás a pensar, David? Vamos então ouvir o Brahms? Nesta paisagem de écloga quinhentista, não houve engano de alma ou memória de alegria que não acabassem em puro desespero. Alma asómate ahora a la ventana: j'ai tant rêvé de toi que tu perds ta realité! Amor de mis entrañas, viva muerte, amor ch'a nullo amato amar perdona, que quero eu ganhar que ser perdido? S'un'anima in due corpi é fatta eterna, direi ditosa ou triste a dura sorte? For as the sun is daily new and old, so is my love still telling what is told... E se fôssemos a Celas? Imagina que o claustro e parte do convento, no fim do século dezanove, foram postos em leilão por um conto de reis! E se calhar ninguém lhe pegou. As providências que o Governo tomava, conta o Ramalho, era serrar os capitéis e recolhê-los num museu. Que massacre! Aqueles capitéis, cada um deles merecedor de um poema, como belas cabeças decapitadas, atirados para o canto de qualquer pátio húmido, servindo de suporte a alguns vasos de sardinheiras... E a propósito de poemas: escrevi um há dias; por reacção ao dark god do Lawrence foi de um green god que falei. São mais uns versos que fico a dever às águas deste rio que a Eufrosina queria descer, levando o seu cravo por única companhia. Que levaríamos nós, se partíssemos juntos? Foi Nietzsche que falou da fatalidade da música como de uma ferida aberta. Nesta cidade, só tu e eu devemos sofrer deste mal - estamos ambos despertos; ambos crescemos violentamente para o nosso ser; ambos temos consciência de que os nossos acordes mais profundos obedecem a uma lei que concilia o entusiasmo mais glorioso com a mais dura disciplina; e não há em nós lugar senão para a alegria de dar testemunho na terra do esplendor mortal dos dias. Quando procurava outra palavra para dizer música, Nietzsche encontrava apenas Veneza. E nós? Alguma vez a palavra música nos virá aos lábios ao pensarmos em Coimbra? É certo: na terminologia de Unamuno, também esta paisagem é mais musical que pictórica. Mas não era disso que eu estava a falar. Uma paisagem assim é mesmo um perigo público - dizem-na poética, e consagram-lhe sonetos. Ora a poesia é inimiga do poético. Os letrados que por aqui passaram quase sempre se esqueceram disso; o resultado é não haver outra cidade sobre a qual se tenham despejado tantos e tão maus versos. Debaixo de tal entulho, custa a descobrir qualquer coisa em que o espírito não tenha abandonado o corpo, e respire. Não espanta que por aqui a poesia tenha escolhido a prosa para habitação. Queres vir almoçar comigo amanhã? Pedirei à Nelmi que faça cannelloni - ela garante que ninguém os faz melhor em Florença. Quando chegares à Quinta da Várzea não te esqueças de olhar à direita: o jacarandá está florido, e um jacarandá em flor é das coisas mais formosas de ver! Quando tiver dinheiro hei-de comprar os Quintetos para cordas, de Mozart. Ouvi ontem o K.614, que ele escreveu uns meses antes de morrer. Porque também para o Mozart houve morte, caríssimo! E se Mozart morreu, como poderão os meus amigos ser imortais? O Aires, a Nelmi, o Armando, a Matilde, o Célio, todos morrerão, e eu com eles a cada instante. Mesmo tu, David, acabarás também por morrer; as cordas deixarão de soar; uma poeira muito fina poisará docemente, docemente poisará na tua harpa, para sempre. Ecco, siamo arrivati. Não faças cerimónia comigo...
- Entra, Eugénio.
São Lázaro, Junho, 1970
Eugénio de Andrade, in Duas Cidades – Antologia sobre o Porto e Coimbra, Editorial Inova Limitada, p. 47.