domingo, outubro 28, 2007
quarta-feira, setembro 05, 2007
Vila-Matas

Hoje é 17 de Julho, são duas da tarde, oiço música de Chet Baker, o meu intérprete preferido. Há pouco, enquanto me barbeava, olhei-me ao espelho e não me reconheci. A radical solidão destes últimos dias está a transformar-me num ser diferente. Seja como for, sinto-me bem com a minha anomalia, o meu afastamento, a minha monstruosidade de indivíduo isolado. Encontro certo prazer em ser arisco, em burlar a vida, em adoptar posturas de herói radical e negativo da literatura (isto é, em ser como os protagonistas destas notas sem texto), em observar a vida e ver que, coitada, não tem vida própria.
Olhei-me ao espelho e não me reconheci. Depois, pensei naquilo que dizia Baudelaire: que o verdadeiro herói é o que se diverte sozinho. Voltei a olhar-me ao espelho e detectei em mim algumas parecenças a Watt, aquele solitário personagem de Samuel Beckett. Tal como Watt, eu poderia ser descrito da seguinte forma: um autocarro pára à frente de três velhos repugnantes que o observam sentados num banco público. O autocarro arranca. «Olha (diz um deles), deixaram um monte de trapos.» «Não (diz o segundo), é um balde de lixo.» «Não, (diz o terceiro), é um maço de jornais velhos que alguém atirou para ali.» Nesse momento o monte de restos avança para eles e pede para se sentar no banco com enorme grosseria. É Watt.
Não sei se fica bem escrever transformado num monte de restos. Não sei. Tenho muitas dúvidas. Talvez devesse acabar com o meu excessivo isolamento. Falar pelo menos com Juan, telefonar para sua casa e pedir-lhe que me volte a repetir aquilo de que não há nada depois de Musil. Tenho muitas dúvidas. A única certeza que agora tenho é que devo mudar de nome e passar a chamar-me CasiWatt. Mas não sei se tem muita importância dizer isto ou outra coisa. Dizer é inventar. Seja certo ou falso. Não inventamos nada, julgamos inventar quando de facto nos limitamos a balbuciar a lição, os restos de uns deveres escolares aprendidos e esquecidos, a vida sem lágrimas, tal como a choramos. E à merda.
Sou apenas uma voz escrita, sem vida privada nem pública, sou uma voz que atira palavras que de fragmento em fragmento vão enunciando a longa história da sombra de Bartleby sobre as literaturas contemporâneas. Sou CasiWatt, sou mero fluxo discursivo. Nunca despertei paixões, e não vou despertá-las agora que já sou apenas uma voz. Sou CasiWatt. Deixo-as dizer, às minhas palavras, que já não são minhas, eu, essa palavra, essa palavra que elas dizem, mas que dizem em vão. Sou CasiWatt e na minha vida só houve três coisas: a impossibilidade de escrever, a possibilidade de o fazer, e a solidão, física desde logo, com a qual continuo. Oiço de repente alguém que me diz:
- CasiWatt, ouves-me?
- Quem está ai?
Por que não te esqueces da tua ruína e falas do caso de Joseph Joubert, por exemplo?
Olho e não há ninguém e digo ao fantasma que me ponho às suas ordens e depois rio-me e acabo por me divertir sozinho, como os verdadeiros heróis.
domingo, agosto 19, 2007
domingo, agosto 12, 2007
sexta-feira, agosto 03, 2007
domingo, julho 22, 2007
quarta-feira, julho 18, 2007
Cormac McCarthy

Outrora existiam trutas nos regatos das montanhas. Víamo-las paradas na corrente cor de âmbar, com a fímbria branca das barbatanas a ondular mansamente na água veloz. Cheiravam a musgo quando as segurávamos na mão. Luzidias e musculosas e a contorcerem-se. No dorso tinham desenhos vermiformes que eram mapas do mundo no seu devir. Mapas e labirintos. De uma coisa que não podia ser recriada. Cuja harmonia não podia ser reposta. Nos fundos vales onde as trutas viviam, todas as coisas eram mais antigas do que o homem e nelas ressoava um mistério.
Cormac McCarthy, A Estrada, Relógio D'Água, p. 187 (tradução de Paulo Faria).
sexta-feira, julho 06, 2007
segunda-feira, junho 25, 2007
Joyce Carol Oates

Lamentando-a, talvez. Ao ver-lhe aquela expressão no olhar. A Morena mudou de assunto & começou a falar de homens. Espirituosa & cruel. Homens que ambas conheciam. Patrões dos estúdios, produtores. Actores & realizadores & argumentistas & outros obscuros habitantes marginais do mundo do cinema. Claro que fodera com Z «durante a minha ascensão. Quem não fodeu?» Anos atrás, fodera com «o Shinn, aquele judeu anão e sexy» e ainda hoje tinha saudades de I. E. E Chaplin. Na verdade, Charlie pai e Charlie filho. Edward G. Robinson pai e Edward G. Robinson filho. «Também andou com o Cass e o Eddy G, Norma, hã?» Sinatra, com quem fora casada uns poucos e tremidos anos. Frankie, que perdera o seu respeito quando tentara matar-se com comprimidos para dormir. «Por amor. Por mim. Alguém chamou uma ambulância, não eu, & salvaram-no Eu disse-lhe: “Seu merdas. São as mulheres que se matam com comprimidos. Os homens enforcam-se ou dão um tiro nos miolos.” Nunca me perdoará, mas há outras mulheres a quem perdoará ainda menos.» A Actriz Loura disse hesitantemente que admirava muito a voz de Sinatra. A Morena encolheu os ombros. «Não é mau. Quando se gosta daquelas baboseiras sentimentais de branco. Mas eu prefiro a música negra, o jazz & o rock. O Frankie era okay a foder. Quando não estava bêbedo ou drogado. Era apressado. Um esqueleto palpitante com um caralho entesado. Mas nada como aquele italiano amigo dele... como é que se chama? Foi casada com ele durante algum tempo, Norma. Os jornais falavam todos de vocês.» Acotovelando a Actriz Loura, piscando o olho: «"O Yankee Slugger." Gostava que o tratasse assim. Temos de reconhecer que os italianos são homens dos pés à cabeça, hã?»
A expressão do rosto da Actriz Loura! À distância, tudo isto estava a ser observado & conservado & seria um dia recordado indistintamente, mas classicamente, a preto & branco. A Morena, a beldade sexy e renegada de seda roxa rindo & pegando com as duas mãos no rosto chocado de bebé da Actriz Loura e beijando-a em cheio na boca.
Essência de Morena, essência de Loura.
A Monroe queria ser uma artista. Foi das poucas pessoas que conheci que levava aquela merda toda a sério. Foi isso que a matou, mais nada. Queria ser reconhecida como uma grande actriz e queria ser amada como uma criança e obviamente não se podem ter as duas coisas.
Tem de se escolher o que se quer mais.
Eu não escolhi nem uma coisa nem outra.
quarta-feira, junho 20, 2007
terça-feira, maio 29, 2007
Roth (3)

She was young and untried and maybe she had intended to say something different, but he took it that she meant what would happen to her should he fail to survive. "One thing at a time," he told her. "First let me die. Then I'll come help you bear up."
Philip Roth, Everyman, Jonathan Cape, 2006, p. 43.
quarta-feira, maio 23, 2007
domingo, maio 13, 2007
quinta-feira, maio 10, 2007
terça-feira, maio 01, 2007
segunda-feira, abril 23, 2007
terça-feira, abril 03, 2007
Leonard Cohen - "Famous Blue Raincoat"
Im writing you now just to see if youre better
New york is cold, but I like where Im living
Theres music on clinton street all through the evening.
I hear that youre building your little house deep in the desert
Youre living for nothing now, I hope youre keeping some kind of record.
Yes, and jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?
Ah, the last time we saw you you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
Youd been to the station to meet every train
And you came home without lili marlene
And you treated my woman to a flake of your life
And when she came back she was nobodys wife.
Well I see you there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see janes awake --
She sends her regards.
And what can I tell you my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you, I guess I forgive you
Im glad you stood in my way.
If you ever come by here, for jane or for me
Your enemy is sleeping, and his woman is free.
Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.
And jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
-- sincerely, l. cohen




