domingo, agosto 19, 2007

quarta-feira, julho 18, 2007

Cormac McCarthy


Outrora existiam trutas nos regatos das montanhas. Víamo-las para­das na corrente cor de âmbar, com a fímbria branca das barbatanas a ondular mansamente na água veloz. Cheiravam a musgo quando as se­gurávamos na mão. Luzidias e musculosas e a contorcerem-se. No dor­so tinham desenhos vermiformes que eram mapas do mundo no seu devir. Mapas e labirintos. De uma coisa que não podia ser recriada. Cu­ja harmonia não podia ser reposta. Nos fundos vales onde as trutas vi­viam, todas as coisas eram mais antigas do que o homem e nelas res­soava um mistério.

Cormac McCarthy, A Estrada, Relógio D'Água, p. 187 (tradução de Paulo Faria).

segunda-feira, junho 25, 2007

Joyce Carol Oates



Lamentando-a, talvez. Ao ver-lhe aquela expressão no olhar. A Morena mudou de assunto & começou a falar de homens. Espirituosa & cruel. Homens que ambas conheciam. Patrões dos estúdios, produtores. Actores & realizadores & argumentistas & outros obscuros habitantes marginais do mundo do cinema. Claro que fodera com Z «durante a minha ascensão. Quem não fodeu?» Anos atrás, fodera com «o Shinn, aquele judeu anão e sexy» e ainda hoje tinha saudades de I. E. E Chaplin. Na verdade, Charlie pai e Charlie filho. Edward G. Robinson pai e Edward G. Robinson filho. «Também andou com o Cass e o Eddy G, Norma, hã?» Sinatra, com quem fora casada uns poucos e tremidos anos. Frankie, que perdera o seu respeito quando tentara matar-se com comprimidos para dormir. «Por amor. Por mim. Alguém chamou uma ambulância, não eu, & salvaram-no Eu disse-lhe: “Seu merdas. São as mulheres que se matam com comprimidos. Os homens enforcam-se ou dão um tiro nos miolos.” Nunca me perdoará, mas há outras mulheres a quem perdoará ainda menos.» A Actriz Loura disse hesitantemente que admirava muito a voz de Sinatra. A Morena encolheu os ombros. «Não é mau. Quando se gosta daquelas baboseiras sentimentais de branco. Mas eu prefiro a música negra, o jazz & o rock. O Frankie era okay a foder. Quando não estava bêbedo ou drogado. Era apressado. Um esqueleto palpitante com um caralho entesado. Mas nada como aquele italiano amigo dele... como é que se chama? Foi casada com ele durante algum tempo, Norma. Os jornais falavam todos de vocês.» Acotovelando a Actriz Loura, pis­cando o olho: «"O Yankee Slugger." Gostava que o tratasse assim. Temos de reconhecer que os italianos são homens dos pés à cabeça, hã?»
A expressão do rosto da Actriz Loura! À distância, tudo isto estava a ser observado & conservado & seria um dia recordado indistintamente, mas classicamente, a preto & branco. A Morena, a beldade sexy e renegada de seda roxa rindo & pegando com as duas mãos no rosto chocado de bebé da Actriz Loura e beijando-a em cheio na boca.
Essência de Morena, essência de Loura.

A Monroe queria ser uma artista. Foi das poucas pessoas que conheci que levava aquela merda toda a sério. Foi isso que a matou, mais nada. Queria ser reconhecida como uma grande actriz e queria ser amada como uma crian­ça e obviamente não se podem ter as duas coisas.
Tem de se escolher o que se quer mais.
Eu não escolhi nem uma coisa nem outra.

Joyce Carol Oates, Blondie, Editorial Notícias, p. 530 (tradução de Maria Nóvoa)

My Heart Belongs to Daddy

terça-feira, maio 29, 2007

Roth (3)


His wife at this time - his third and his last - bore no resemblance to Phoebe and was nothing short of a hazard in an emergency. She certainly didn't inspire confidence on the morning of the surgery, when she followed beside the gurney weeping and wringing her hands and finally, uncontrollably, cried out, "What about me?"
She was young and untried and maybe she had intended to say something different, but he took it that she meant what would happen to her should he fail to survive. "One thing at a time," he told her. "First let me die. Then I'll come help you bear up."

Philip Roth, Everyman, Jonathan Cape, 2006, p. 43.

quinta-feira, maio 10, 2007

terça-feira, maio 01, 2007

segunda-feira, abril 23, 2007

terça-feira, abril 03, 2007

Leonard Cohen - "Famous Blue Raincoat"

Its four in the morning, the end of december
Im writing you now just to see if youre better
New york is cold, but I like where Im living
Theres music on clinton street all through the evening.

I hear that youre building your little house deep in the desert
Youre living for nothing now, I hope youre keeping some kind of record.

Yes, and jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?

Ah, the last time we saw you you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
Youd been to the station to meet every train
And you came home without lili marlene

And you treated my woman to a flake of your life
And when she came back she was nobodys wife.

Well I see you there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see janes awake --

She sends her regards.
And what can I tell you my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you, I guess I forgive you
Im glad you stood in my way.

If you ever come by here, for jane or for me
Your enemy is sleeping, and his woman is free.

Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.

And jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear

-- sincerely, l. cohen