sábado, outubro 29, 2005

Cernuda


Que ruído tão triste

Que ruído tão triste fazem dois corpos quando se amam,

parece o vento que se move no outono

sobre adolescentes mutilados,
enquanto as mãos chovem,
mãos ligeiras, mãos egoístas, mãos obscenas,
cataratas de mãos que foram um dia

flores no jardim de uma algibeira tão pequena.

As flores são areia e as crianças são folhas,
e o seu leve ruído é amável ao ouvido
quando riem, quando amam, quando beijam,

quando beijam o fundo
de um homem jovem e cansado

porque dantes sonhou de dia e de noite.


Mas as crianças não sabem,
nem tão-pouco as mãos chovem como dizem;

assim o homem, cansado de estar sozinho com seus sonhos,
invoca as algibeiras que abandonam areia,
areia das flores,
para que um dia decorem a sua face de morto.

(Los placeres prohibidos)

Luis Cernuda, 20 Poetas Espanhóis do Século XX, Alma Azul, 2003, (tradução de Ruy Ventura), p. 95.

sexta-feira, outubro 28, 2005

Nuvens

Assis Pacheco



BRENDA. De Bâton Rouge.

Inscrita na agenda em Baltimore, Maryland, a meia centena de metros da igreja de Westmins­ter, ao pé de onde está sepultado Edgar Allan Poe.

Brenda romântica:

«Porra, mais uma seca no bar e não me estreava hoje!»

Brenda de cabelo ruivo, ruivo pouco natural, atentas as tintas. O indicador direito castanho dos cigar­rómetros. Mamas caídas, que se adivinhavam e eu de­pois tive tempo de analisar com a paixão do entomologista. Quarentas bem medidos, ou como ela meta­forizou no minuto do chuveiro:

«Desculpa lá, pareço uma cafeteira toda rota.»

«Pareces nada.»

«Pareço. Precisava de dez pingos de solda para não dar barraca. Olha, deixa andar.»

Brenda ainda na fase da pré-asfixia pulmonar, à barra, para o artolas de mim:

«Pagas um bourbon?»

«Pago se a seguir a esse beberes outro.»

«Bonzinho!»

«É conforme.»

«Conforme a xandra, queres tu explicar.»

«Conforme a xandra, acertaste.»

«Lá gentil és.»

«Se sou.»

Brenda deita contas à vida, sagaz, tipo psicanalista da Escola Steker:

«Cinquentas. Não há descontos.»

«Vai bebendo o copo que já falamos.»

Agora dou-lhe que matutar. Pois se há cinco minu­tos a engatei com todos os matadores, beijinho na orelha, mãozorra no casqueiro, cheio de olés, e não pego na bisca! O seu latim estará condenado a perder-se? Não está, sou realmente bonzinho.

«Xandras de cinquentas não me interessam. Dou cens. Pago adiantado», digo e lanço o mindinho à carteira.

Brenda não cabe em si: de pasmo, de hipocrisia sulista, de chewing-gum na boca. Saliva abundante­mente quando vê os cens. Deve recordar-se de uns lampejos felizes na adolescência, a escola dominical, o piquenique do liceu, e jura que chora, mas eu ponho­-me a pau e estipulo condições:

«Se choras baixo para os trinta.»

Pronto, não chorou, exigindo de permeio um par luvas de pelica, comprei as luvas, um romance de sexo e tiros, comprei o romance, e morria por um hamster coitadinho na montra duma loja de bichos, o hamster não comprei porque cheirava mal e eu de­testo essências exóticas.

O motel tinha uma tabuleta a dizer Voyage. Era como Brenda, pagava-se adiantado. O tipo da recepção acumulava com barman, e foi questionando sobre as nossas referências líquidas:

«Um manhattan? Para a senhora um bloody Mary? Não? Bourbon para o casal?»

Descansei-o:

«Bebemos água da companhia.»

Fingiu que gostara da graça e deu-me a chave do cortiço com uma toalha, um toalhete e um sabonete minúsculo de propaganda aos Orioles campeões de ba­seball.

Já no quarto Brenda, a xandra, bocejou:

«Apetecia-me era chonar.»

«Depois do xeque ao bispo», especifiquei para não comido.

«OK, OK», disse Brenda engolindo o bocejo. Mostra lá à menina esse furta-cores.»

Daí a minutos, despachado dos cens, procurei averiguar se Brenda fazia um saldo jeitoso para a segunda travessia no arame, e foi a vez de ela dominar o jogo com esta filosófica tirada:

«Vocês, pobrezinhos, sei lá quando voltam a pinocar. É o que tu quiseres, que eu gosto mais disto do que gosto de chili.»

Gostava sem reticências. Quando comparo a Ar­lete à Brenda não posso deixar de lamentar a inclina­ção, e a perseverança, do Mac. Quarentas à base de ginástica sueca, se me permitem o circunlóquio! O Poe é que sabia!

Brenda tomou duas chuveiradas, palmou o que era de palmar, cinzeiro, guardanapos de papel, Bíblia Gi­deon (que lhe repalmei), frasco de after-shave, res­guardo «higienizado» da retrete, vestiu-se demorada­mente, folheou o livro que eu andava na altura a ler, um Bukowski, às dez e meia da manhã (do dia seguinte, dólares bem gastos!) fez bye-bye e pespegou-me um baby no entredentes.

«Sempre vais para o Vietnam?», perguntou sem grande crença na minha história da véspera.

«Sempre», cuspi de mistura com o pastoso baby da cena anterior.

«E vais ganhar o céu, estou a ver», disse ela.

Enrolei-me no cobertor:

«Os anjinhos de Saigão têm os olhos em fenda.»

«Devem ter, devem!», abanou ela a cabeça. «Olha mas é os escarépios, não venhas contar que fui eu. Limpinha como o Santo Sepulcro!»

E ergueu dois dedos no sinal dos escuteiros.

Fernando Assis Pacheco, Walt, Livraria Bertrand, 1979, p. 45.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Sena


Num ímpeto brusco, que o despegou do corpo dela, rolou e parou deitado ao lado, com a mão esquerda esten­dida por cima dos cabelos soltos dela, que roçava, e a mão direita pousada entre os dois seios, sentindo, menos que o coração batendo, a tremura ténue que a ficara percorrendo. De olhos fechados, ela trouxe as mãos sobre a dele, segu­rando-a, sem força, contra o peito. Então, a mão, sob as outras, deslizou um pouco e, entre o polegar e os dedos estendidos, tomou a curva da inserção do seio, que, com um jeito oscilante do pulso, ia contornando cariciosamente. As mãos dela apertaram a sua, e ela, descaindo a cabeça, fitou-o.

Olhou-o docemente, num olhar húmido e quebrado em que as feições dele evoluíam incertas, ao sabor das sombras e do encantamento que ainda perdurava nela, e tomando aspectos diversos, ora confundidos, ora sucessivos, em que havia traços dos retratos dele em criança e em adolescente, quando o não conhecera, e recordações de ângulos em que surpreendera a cabeça dele e lhe haviam ficado pela sobressaliência, que destacara então, de um pormenor qualquer, uma comissura dos lábios, um recanto de pálpebra, uma nódoa da barba, um delicado contorno da orelha.

(...)

A mão, espalmando-se no peito, esfregou os pêlos ao arrepio deles, que não eram crespos, mas, salvo num ou noutro redemoinho, dirigidos no sentido do ventre, a cujo umbigo pareciam apontar. Senti-los assim correr na sua palma revirados, e poder repô-los depois com repetida carícia, era uma forma de exorcismo, uma maneira de afugentar a apreensão que a pele dele, atraindo-a, lhe causava. Foi descendo depois com a mão, prolongando pelo tronco abaixo as carícias com que repunha os pêlos. Numa aspiração entre­cortada e dupla, como um indistinto soluço, ele suspirou.

Então, a mão ficou retida no umbigo. E os olhos pers­crutaram o rosto dele, que continuava imóvel, pálpebras cerradas, sobrancelhas soerguidas, boca ligeiramente entrea­berta. Só o nariz parecia palpitar. A mão levantou-se e pairou hesitante: pousaria quieta, afagaria um pouco, regressaria, avançaria, ou retirar-se-ia?

Embora conhecesse por experiência as reacções que a tudo, diversas, ele poderia ter, não sabia, na solidão que começava a invadi-la, qual das reacções preferia, para estilha­çar-lhe o vidro que se interporia nela, entre o ardor sequioso, latejando no pescoço e no ventre, e a coragem de provocar um gesto decisivo que poderia ofendê-la, ou humilhá-la, ou magoá-la mesmo, ou dominá-la apenas.

A mão pousou, porque ela sentiu que não desejava nada; e, porque, repentinamente, uma imensa tranquilidade grata era o que latejava afinal em compassado ardor, a mão foi avançando e penetrou os dedos na massa crespa em que o enleou. O cotovelo afrouxou, dormente, no que o corpo se apoiava. E a cabeça, descaindo para a frente, pousou suavemente, acomodando-se, no peito dele.

Entre ambos ficou o braço dele, que ela sentiu esgueirar-se e envolvê-la depois, sem a tocar, de que ficou esperando, contraída e desagradada, que ele fizesse o que fez, percorrer-lhe com as pontas dos dedos a espinha até às ancas, onde a mão se espalmou, aberta, para apertar-lhe logo com força a carne. Então a mão dela avançou mais, roçou com as costas ao longo do sexo, que deu um lento salto, mergulhou nas virilhas, e demorou-se sentindo, nas costas, os movimentos interiores, ora lentos, ora súbitos, dos testículos.

Repentinamente, a mão que, apertada a carne das ancas, ficara pousada e como lá esquecida, levantou-se e, agarrando-a no pescoço, por detrás, fê-la levantar-se e cair deitada, enquanto o tronco e o outro braço vinham sobre ela, e os dentes a mordiam no lábio inferior com uma violência que tentou repelir. Mas logo a sua própria língua lhe embateu nos dentes, que descerrou para que ela viesse encostar-se à outra que, abrindo-lhe os lábios, a buscava.

Jorge de Sena, excerto do conto "Os Amantes" inserto na antologia Antigas e Novas Andanças do Demónio, Edições 70, 1981, p. 201.

sexta-feira, setembro 30, 2005

BOCCACCIO



DE QUALQUER MANEIRA

O marido de Peronella regressa a casa e ela esconde o amante num tonel. Ora o marido acabara de o vender, mas ela assegura tê-lo por sua vez vendido a um homem que está precisamente dentro dele a ver se está em bom estado. O indivíduo sai então do seu esconderijo, faz com que o marido raspe o tonel e acaba por levá-lo consigo.

Em Nápoles - a história é recente - um homem pobre casou com uma bonita e graciosa rapariga chamada Peronella. Ele tinha a profissão de pedreiro, ela fiava. Ganhava pouco e viviam um dia melhor, outro pior. Ora um belo rapaz reparou um dia na rapariga e gostou dela. Fez-lhe então uma corte tão insistente que conseguiu obter os seu favores. A maneira como se encontravam era esta: Como o marido se levantava todas as manhãs muito cedo, a fim de ir para o trabalho ou a fim de o procurar, o conquistador andava ali por perto a ver quando ele saía. A rua onde o casal morava que se chama Avorio, era muito solitária e por isso nada era mais fácil do que entrar então em casa. Tais precauções foram muitas vezes coroadas do maior êxito.

Ora numa manhã em que Giannel Stignario (assim se chamava o rapaz) entrara em casa da amante e lhe fazia companhia, o marido, cuja ausência costumava durar o dia inteiro, regressou pouco depois de ter saído. Achou a porta fechada por dentro, bateu, e, enquanto batia, ia pensando: «Meus Deus, que o teu nome seja abençoado por todo o sempre! Fizeste-me pobre, mas, pelo menos, compensaste-me dando-me por mulher esta boa e honesta rapariga. Como ela correu o ferrolho logo que eu parti, a fim de que ninguém possa entrar e causar-lhe aborrecimentos!»

Peronella, que tinha ouvido o marido e reconhecido a sua maneira de bater, disse então:

- Ai de mim, Giannel, estou morta. É o meu marido, maldito seja, que voltou. Que quererá isto dizer? Nunca vem a casa a esta hora. Talvez te tenha visto entrar. Paciência. Por amor de Deus mete-te naquele tonel. Eu vou abrir a porta. Logo se verá por que razão voltou ele para trás.

Giannel saltou para dentro do tonel. Peronella foi então abrir a porta ao marido e disse-lhe de má catadura:

- Mas que novidade é esta de voltares assim para casa? Ao que vejo, não estás hoje para fazer nada e voltas com as ferramentas na mão. Por este andar de que vamos nós viver? Onde encontraremos pão? Se julgas que te deixo pôr a minha saia e as minhas outras roupas no prego estás muito enganado. Dia e noite não faço senão fiar (tanto que já nem tenho carne à volta das unhas) para que ao menos haja azeite suficiente na candeia. Homem, todas as vizinhas se espantam; troçam de mim e de tudo o que eu faço, de tudo o que eu suporto. E tu voltas-me de braços caídos quando devias estar na obra.

Dito isto Peronella desfez-se em lágrimas e prosseguiu:

- Oh! mas que desgraça a minha! Que sorte havia de ter! Em que má hora havia eu de ter nascido! Podia ter casado com um bom rapaz e não o quis por este indivíduo que não quer saber para nada da mulher. As outras divertem-se com os amantes (cada uma tem dois ou três) e mostram a Lua aos maridos, fazendo-os acreditar que é o Sol. Pobre de mim! Sou boa mulher e não é esse o meu género. É por isso que tenho uma pouca sorte assim. Mas porque não hei-de eu tê-los como as outras? Ouve, homem, estou a falar a sério. Se quisesse portar-me mal, achava forma para o meu pé. Não faltam por aqui bonitos rapazes que me acham a seu gosto e que me querem bem. Já me ofereceram dinheiro ou roupas e jóias se eu as preferisse. Mas não tenho disposição para isso porque a minha mãe educou-me de outra maneira. E tu voltas para casa quando devias estar no trabalho!

- Por Deus, mulher, não te rales tanto. Sei muito bem quem tu és, e ainda esta manhã me deste mais uma prova. A verdade é que fui à obra. Mas acho que também não estás ao corrente, como o que me aconteceu a mim. Hoje é dia de São Galeão e não se trabalha. Foi por isso que me vim embora. Mas não tem importância. Pensei em tudo e encontrei maneira de arranjar pão para mais de um mês. Estás a ver o homem que me acompanha? Vendi-lhe o tonel que nos enche a casa, tão grande é. Dá-me por ele cinco florins.

Peronella respondeu então:

- Muito bem, é o cúmulo. Tu és homem, andas por aqui e por ali. Devias saber o preço das coisas. E vendeste o tonel por cinco florins! Eu sou uma pobre mulher e por assim dizer nunca saio, mas, por causa do aborrecimento que nos causava em casa, vendi-o por sete florins a um freguês. Quando chegaste acabava ele de entrar para verificar se o tonel estava em bom estado.

O marido, ouvindo isto, não cabia em si de contente. Voltou-se para o homem que o acompanhava e disse-lhe:

- Vai com Deus, bom homem. Como já ouviste, a minha mulher vendeu-o por sete florins, quando tu só me oferecias cinco.

- Está bem, disse o indivíduo, afastando-se.

Disse então Peronella:

- Já que estás em casa, sobe e trata tu do negócio com o outro.

Giannel que estivera de ouvido alerta a fim de se preparar para qualquer perigo eventual, quando ouviu as palavras de Peronella, fez de conta que não tinha dado pela chegada do marido e pôs-se a gritar:

- Onde estás, boa mulher?

O marido apresentou-se.

- Estou eu aqui. Que queres tu?

- Mas quem és? Quero é falar com a senhora com quem tratei do assunto do tonel.

- Podes falar confiadamente. Sou o marido dela.

- Pois bem, o tonel parece em bom estado, mas dir-se-ia que lhe puseram lá dentro porcaria de conserva. Está todo besuntado não sei de quê, mas de uma coisa tão seca que não consegui raspá-Ia com a unha. Não o levo antes de o limparem bem.

Peronella interveio:

- Ah, mas não é por isso que deixamos de fazer negócio. O meu marido vai limpá-lo bem.

- Claro, disse o marido.

Largou a ferramenta, pôs-se em mangas de camisa, mandou acender uma candeia e pediu à mulher uma raspadeira. Depois do que entrou no tonel e começou a raspá-lo. Peronella, como que para vigiar o trabalho, meteu a cabeça na abertura do tonel, que era bastante estreita e também o braço e até o ombro. E dizia:

- Raspa aqui, e ali. Atenção! Olha que acolá não ficou bem raspado.

Assim ela estava, dando conselhos e guiando o trabalho.

Ora nessa manhã, Giannel não satisfizera os seus desejos antes de o marido chegar. Vendo que seria difícil conseguir satisfazê-los, aproveitou a ocasião que a Fortuna lhe dava. Encostando-se à mulher que obstruía inteiramente a abertura do tonel, levou a bom termo o seu juvenil desejo, tal como se pode ver, nas vastas planícies, os garanhões abrasados de amor assaltarem as éguas partas. Mais ou menos na altura em que teve plena satisfação, tudo estava limpo. Largou então a mulher, que levantou a cabeça, e o marido saiu do tonel. Peronella voltou-se para o amante:

- Pronto, bom homem. Pega na candeia e vai ver se está limpo a teu gosto.

Giannel examinou o interior, declarou que tudo estava bem e que se sentia contente. Deu os sete florins e mandou entregar o tonel em sua casa.

Boccaccio, Histórias Eróticas, Editorial Inova, 1972 (trad. de Urbano Tavares Rodrigues), p. 41.

domingo, setembro 18, 2005

Rubem Fonseca



“A gente pode iniciar uma queda-de-braço de duas maneiras: no ataque, mandando brasa logo, botando toda a força no braço imediatamente, ou então ficando na retranca, aguentando a investida do outro e esperando o momento certo para virar. Escolhi a segunda. Waterloo deu um arranco tão forte que quase me liquidou; puta merda!, eu não esperava aquilo; meu braço cedeu até metade do caminho, que burrice a minha, agora quem tinha que fazer força, que se gastar, era eu. Puxei lá do fundo, o máximo que era possível sem fazer careta, sem morder os dentes, sem mostrar que estava dando tudo, sem criar moral no adversário. Fui puxando, puxando, olhando o rosto de Waterloo. Ele foi cedendo, cedendo, até que voltamos ao ponto de partida, e nossos braços se imobilizaram. Nossas respirações já estavam fundas, sentia o vento que saía do meu nariz bater no meu braço. Não posso esquecer a respiração, pensei, essa parada vai ser ganha pelo que respirar melhor. Nossos braços não se moviam um milímetro. Lembrei-me de um filme que vi, em que os dois camaradas, dois campeões, ficam um longo tempo sem levar vantagem um do outro, e enquanto isso um deles, o que ia ganhar, o mocinho, tomava uísque e tirava baforadas de um charuto. Mas ali não era cinema não; era uma luta de morte, vi que o meu braço e o meu ombro começavam a ficar vermelhos; um suor fino fazia o tórax de Waterloo brilhar; sua cara começou a se torcer e senti que ele vinha todo e o meu braço cedeu um pouco, e mais, raios!, mais ainda, e ao ver que podia perder isso me deu um desespero, e uma raiva! Trinquei os dentes! O crioulo respirava pela boca, sem ritmo, mas me levando, e então cometeu o grande erro: sua cara de gorila se abriu num sorriso e, pior ainda, com a provocação grasnou uma gargalhada rouca de vitorioso, jogou fora aquele tostão de força que faltava para me ganhar. Um relâmpago cortou minha cabeça dizendo: agora!, e a arrancada que dei ninguém segurava, ele tentou, mas a potência era muita; seu rosto ficou cinza, seu coração ficou na ponta da língua, seu braço amoleceu, sua vontade acabou – e de maldade, ao ver que entregava o jogo, bati com seu punho na mesa duas vezes. Ele ficou agarrando minha mão, como uma longa despedida sem palavras, seu braço vencido sem forças, escusante, caído como um cachorro morto na estrada.”
(Extracto do conto "A força humana" in "64 contos de Rubem Fonseca", Companhia das Letras (2004)

Reinício

Retoma-se aqui a emissão depois de uma longa pausa. As forças da natureza, impiedosas, abateram-se sobre este pobre navio e deixaram-no à deriva por longo tempo. Quando finalmente se avistou terra, outras tarefas ingentes ocuparam a tripulação. Agora, com o regresso da calmaria, talvez este errante navegante possa aportar outra vez a novos cais. Veremos.

segunda-feira, agosto 22, 2005

sábado, agosto 20, 2005

sexta-feira, agosto 19, 2005

Hammett


No seu quarto, agora living visto que a cama estava levantada, Spade arrumou o chapéu e o casaco de Brigid O’Shaughnessy, instalou-a confortavelmente numa cadeira de baloiço estofada e ligou para o Hotel Belvedere. Cairo não tinha chegado do teatro. Spade deu o seu número e pediu que avisassem Cairo de que devia telefonar-lhe logo que chegasse.

Depois sentou-se na cadeira de braços ao lado da mesa e sem qualquer preâmbulo, assim de chofre, começou a contar à rapariga uma coisa que tinha acontecido há anos no Noroeste. Falava numa voz tipo «vamos ao que importa», sem ênfases nem pausas, embora de vez quando repetisse a mesma frase com pequenas modificações, como se fosse importante que cada pormenor saísse exactamente como tinha acontecido.

Ao princípio, Brigid O'Shaughnessy escutava com pouca atenção, obviamente mais surpreendida com o facto de ele lhe contar uma história do que interessada nela. Parecia mais empenhada em descobrir a razão por que Spade lhe contava a história do que em seguir a história propriamente dita. Mas depois, à medida que a história se desenrolava, começou a interessar-se cada vez mais por ela e acabou por ficar imóvel e absorta.

Um dia, um homem chamado Flitcraft saíra do seu escritório, em Tacoma, para ir almoçar, e nunca mais voltara. Nessa tarde não apareceu para jogar golf às quatro horas, embora tivesse sido ele a combinar o jogo menos de meia hora antes de sair para almoçar. A mulher e os filhos nunca mais o viram. Parecia dar-se muito bem com a mulher. Tinha dois rapazes, um com cinco e o outro com três. Tinha uma casa sua nos arredores de Tacoma, um Packard novo e todos os demais confortos de um americano bem instalado na vida.

Flitcraft tinha herdado do pai setenta mil dólares e, com o seu negócio de bens imobiliários, tinha ganho qualquer coisa como duzentos mil dólares até à altura em que desapareceu. Tinha todos os assuntos em ordem, embora nada indicasse que tinha estado a arrumá-los para poder depois desaparecer. Havia mesmo, por exemplo, um negócio francamente vantajoso que ia fechar-se no dia a seguir àquele em que ele desapareceu. Nada parecia indicar que tivesse consigo mais de cinquenta ou sessenta dólares na altura em que partiu. Nada nos seus antecedentes, tão rotineiros, poderia justificar a suspeita de vícios secretos ou mesmo de que existisse outra mulher na sua vida, embora pudesse sempre ser possível.

«Desapareceu assim», disse Spade, «como um punho fechado quando se abre a mão.»

Quando chegou aqui, tocou o telefone.

«Estou... M. Cairo?... Sim, sou eu. Pode passar aqui - na Post Street - agora? ... Sim, acho que sim.» Olhou para a rapariga, contraiu os lábios e depois disse depressa: «Miss O'Shaughnessy está cá e quer .falar consigo.»

Brigid O'Shaughnessy franziu as sobrancelhas e mexeu-se na cadeira, mas não disse nada.

Spade desligou e disse: «Não tarda aí. Bem, isto passava-se em 1922. Em 1927, estava eu a trabalhar numa das maiores agências de detectives de Seattle. Mrs. Flitcfraft apareceu lá e disse-nos que alguém tinha visto um homem em Spokane muito parecido com o marido. Fui a Spokane. E era mesmo o Flitcraft. Vivia em Spokane há uns poucos de anos como Charles - era o seu primeiro nome - Pierce. Tinha um negócio de automóveis que lhe rendia vinte a vinte e cinco mil dólares por ano, uma mulher, um bebé e uma casa sua nos arredores. Quando estava bom tempo costumava jogar golf depois das quatro da tarde.»

Ninguém lhe tinha dado indicações precisas sobre o que havia de fazer quando encontrasse Flitcraft. Estava a falar com ele no seu quarto no Devenport. Flitcraft não se sentia nada culpado. Tinha deixado a sua primeira família em boa situação económica e o que depois fizera parecia-lhe perfeitamente normal. A única coisa que o preocupava era fazer entender a Spade essa normalidade. Nunca tinha contado a sua história a ninguém anteriormente, o que não o ajudava a tornar clara essa normalidade. Tentava agora pela primeira vez.

«Percebi-o logo», disse Spade a Brigid O'Shaughnessy, «mas Mrs. Flitcraft não. Pensou que ele estava doido. Talvez estivesse. De qualquer maneira acabou tudo em bem. Ela não queria escândalos e além disso, depois da partida que ele lhe tinha pregado - era assim que ela via as coisas - não queria mais nada com ele. Houve portanto um divórcio calmo e o assunto ficou arrumado.

O que lhe aconteceu foi o seguinte: quando ia almoçar, passou por um prédio em construção. Uma viga ou qualquer coisa do género caiu do oitavo ou do décimo andar e veio tombar mesmo ao seu lado, no passeio. Passou-lhe mesmo de raspão, mas não lhe tocou. Houve foi uma pedra do passeio que se partiu, saltou e o feriu na cara. Foi só um arranhão, mas ainda tinha a cicatriz quando o vi. Passava-lhe um dedo por cima - assim, todo contente - a contar-me a história. Apanhou um grande susto, claro, dizia ele, mas ficou mais chocado do que propriamente assustado. Sentiu-se como alguém que tivesse levantado a pálpebra da vida e tivesse resolvido olhar para o que se passava lá dentro.»

Flitcraft tinha sido um bom cidadão e um bom marido e pai, não por qualquer espécie de imposição do exterior, só porque era um homem que sentia mais conforto em caminhar a passo certo ao lado dos outros. Era o que sempre tinha querido. As pessoas que conhecia eram assim. A sua vida era um negócio limpo, arrumado, são, respeitável. E de repente a queda de uma viga tinha-lhe mostrado que a vida, no fundo, não tinha nada a ver com essas coisas. Ele, o bom cidadão-marido-pai podia ser varrido de um momento para o outro entre o escritório e o restaurante pela queda acidental de uma viga. Percebeu então que as pessoas morriam assim ao calha e viviam só enquanto um cego acaso as protegia.

Não era tanto a injustiça do facto que o perturbava: aceitou-a logo a seguir ao primeiro abalo. O que o perturbava era a descoberta de que, a resolver sensatamente todos os seus assuntos, acabara por estar a trocar e não a acertar o passo com a vida. Dizia que ainda não tinha andado vinte passos depois da queda da viga e já sabia que nunca mais teria sossego até conseguir adaptar-se àquela nova imagem da vida que entrevira a brilhar. Enquanto almoçava tinha estado a pensar nas maneiras de se adaptar. A vida podia acabar para ele assim à toa, pela queda de uma viga: ia mudar de vida também à toa, por um simples desaparecimento. Amava a sua família, dizia, tanto como supunha ser costume, mas tinha a certeza que os deixava em bastante boa situação económica e o seu amor por eles não era amor que fizesse doer a ausência.

«Nessa tarde foi para Seattle», continuou Spade, «e de lá apanhou o barco para S. Francisco. Durante uns poucos de anos andou por aqui às voltas e depois acabou por ir parar ao Noroeste, e instalar-se em Spokane, e casar-se. A sua segunda mulher não se parecia com a primeira mas, mesmo assim, eram mais parecidas do que diferentes. Está a ver, o género de mulheres que jogam bons jogos de golf e bridge e gostam de novas receitas de saladas. Não estava arrependido do que tinha feito. Parecia-lhe perfeitamente normal. Acho que nem se chegou a aperceber de que tinha acabado naturalmente por mergulhar no mesmo tipo de rotina de que tinha saído em Tacoma. Mas é essa a parte da história de que eu sempre gostei. Ele adaptou-se ao facto de as vigas caírem; depois, não caiu mais nenhuma e ele adaptou-se ao facto de não caírem.»

«Perfeitamente fascinante», disse Brigid O'Shaughnessy. Levantou-se da cadeira e ficou de pé mesmo em frente dele. Olhos muito abertos num olhar profundo. «Não preciso de lhe dizer até que ponto me prejudicará definitivamente se escolher o partido de Cairo quando ele chegar.»

Spade sorriu levemente sem abrir os lábios. «Não precisa de me dizer, não», concordou.

Dashiell Hammett, O Falcão de Malta, A Regra do Jogo Edições, 1980, (tradução de Helena Domingos), p. 63.

quarta-feira, agosto 17, 2005

Rilke



Mas a ti, que eu conhecia, a ti quero agora
como a uma flor de que nem sei o nome,
lembrar mais uma vez pra te mostrar aos outros,
roubada, bela amiga do invencível grito.

Bailarina primeiro, que súbito o hesitante
corpo deteve, como a juventude em bronze
fundida; de luto, à escuta. - Do alto
cai música no alterado coração.

A doença era perto. Preso já das sombras,
o escuro sangue impelia; mas, suspeitado
de leve, jorrou em primavera natural.

Sempre e sempre, de sombra e queda interrompido,
brilhou terrestre. Até que após tremendo golpe
entrou na porta sem consolo aberta.

Rainer Maria Rilke, Sonetos a Orfeu (XXV - Primeira Parte), Edições ASA (tradução de Paulo Quintela)

segunda-feira, agosto 15, 2005

Durrell (releituras de verão)


"Ela range os dentes no sono; quando acorda ao amanhecer um olhar de fogo claro, como uma lâmpada de sódio. Nua e fora do seu casulo tomo a ninfa nos braços, tirando um bilhete branco na lotaria do amor. Um doutor em literatura como olhos de betão. A suave maquinaria da psicoconversa. Passeio nos jardins públicos como uma lebre tinhosa. Gordos traseiros esquivos de mamãs e carrinhos de criança. Nas montras das lojas olho ansiosamente para a minha própria beleza - mas tudo o que vejo é um homenzarrão inchado que sofre obviamente de hemorróidas, afundado no seu sobretudo como um pato-americano. Ouvi falar de um velho artista que montou o crânio da amante sobre uma almofada de veludo com jóias a servir de olhos.
É de noite agora, noite fechada, e o meu crânio está cheio de resmungos cinzentos."

Lawrence Durrell, Monsieur ou o Príncipe das Trevas, Difel (tradução de Daniel Gonçalves), p. 195.

domingo, agosto 14, 2005

sexta-feira, agosto 05, 2005

quinta-feira, agosto 04, 2005

Home, sweet home.

Vian



"Amadis Dudu seguia sem convicção nenhuma pela estreita viela que representava o atalho mais longo para se chegar à paragem do autocarro 975. Todos os dias tinha de apresentar três bilhetes e meio, pois descia, com o autocarro em andamento, antes da paragem; tacteou o bolso do colete para ver se ainda tinha algum bilhete. Tinha. Viu um pássaro empoleirado num monte de lixo, a bicar em três latas de conserva vazias, o que conseguia reproduzir o início dos Barqueiros do Volga; parou, mas o pássaro deu uma fífia e, furioso, levantou voo, resmungando, entre bico, umas obscenidades à pássaro. Amadis Dudu retomou o caminho, cantando o resto da música; mas deu também uma fífia e começou a praguejar."

Boris Vian, O Outono em Pequim, Livos Unibolso (tradução de Luiza Neto Jorge), p. 7.

Roth



"No sábado fomos até ao lago Champlain, parando pelo caminho para a Macaca tirar fotografias com a sua Minox; ao fim do dia fizemos um desvio por Woodstock, passando o trajecto a embasbacar-nos, a soltar exclamações e suspiros. De manhã (num baldio à beira do lago) tivemos relações sexuais, e depois à tarde, numa estrada de terra batida algures nas montanhas do Vermont Central, ela disse: «Oh Alex, encosta, encosta já - quero que te venhas na minha boca», e de facto chupou-me a pissa, e de cabeça para baixo!
O que é que eu estou a tentar comunicar? Simplesmente que começámos a sentir alguma coisa. A sentir sentimentos! E sem a menor diminuição do apetite sexual!
«Sei um poema», disse eu, falando quase como se estivesse bêbedo, bêbedo e capaz de vencer qualquer homem que me aparecesse pela frente, «e vou recitá-lo.»
Ela estava aninhada no meu colo, ainda de olhos fechados, com o meu membro já mole encostado à cara como um pintainho.«Ah, vá lá», resmungou, «agora não, eu não percebo nada de poemas.»
«Este vais perceber. É sobre uma foda. Um cisne fode uma linda rapariga.»
Ela ergueu os olhos, fitando-me por entre as pestanas postiças. «Essa é boa.»
«Mas é um poema sério.»
«Bom», disse ela, lambendo-me o pirilau, «o delito, pelo menos, é sério.»
«Oh, que irresistíveis e espirituosas sãos as beldades sulistas - especialmente as assim esbeltas como tu.»
«Deixa-te de tretas, Portnoy. Recita mas é o poema ordinário.»
«Porte-noir», disse eu, e comecei:

«Repentino golpe: batendo inda as grandes asas
Sobre a rapariga vacilante, negras patas
A afagar-lhe as coxas, presa no bico a nuca,
Aperta contra o seu peito o peito fraco.»

«Onde é que tu foste aprender», perguntou ela, «uma coisa dessas?»
«Chiu. Ainda há mais:»

«Como afastarão aterrados os dedos frouxos
Das coxas desfalecidas o explendor das penas?»

«Hei!», exclamou ela. «Coxas!»

«E como não sentirá o corpo, esmagado pelo branco ardor,
Pulsar onde pulsa o coração do estranho?
Um estremeção dos rins ali engendra
A muralha em ruínas, o tecto e a torre em chamas
E Agamémnon morto.
Tão dominada,
Tão presa do sangue animal dos ares,
Pôde ela dele tomar saber e força
Antes que a largasse o bico indiferente?»

«Pronto, acabou-se», disse eu."

Philip Roth, O Complexo de Portnoy, Bertrand Editora 1994, (tradução de Ana Luísa Faria), p. 205.

quarta-feira, agosto 03, 2005

Yeats




A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed

By his dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.


How can those terrified vague fingers push
The feathered glory from her loosening thighs?
How can anybody, laid in that white rush,
But feel the strange heart beating where it lies?

A shudder in the loins, engenders there
The broken wall, the burning roof and tower
And Agamemnon dead.


Being so caught up,
So mastered by the brute blood of the air,

Did she put on his knowledge with his power

Before the indifferent beak could let her drop?


William Butler Yeats, Leda and the swan

terça-feira, agosto 02, 2005

Reich



«Em 1929, fui com a minha mulher visitar Wilhelm Reich. Lo, a minha mulher, roía as unhas e eu achava isso horrível. Falei no assunto com uns amigos do Partido, que me disseram: "Temos um psicanalista no Partido. A psicanálise não é só para os ricos, é também para os pobres. Vai visitá-lo, chama-se Wilhelm Reich". Fomos. Só tinha móveis do Bauhaus e começou a fazer-nos perguntas sobre a escola e o que lá fazíamos. Depois, ao fim de uns momentos, perguntou-nos a razão da nossa ida. Mostro-lhe as mãos de Lo: "Olhe, não é horrível?" Volta-se para Lo e pergunta-lhe em que é que ela trabalha. "Estou no Bauhaus, na oficina de metais". "Ah, não está em contacto com o público, não é secretária de um director que poderia incomodar-se com isso?" "Não!" "Oiça, coma as suas unhas tranquilamente, que isso passa por si só.»
Entrevista com Albert Flocon, Berlim, 1919-1933, Terramar, Colecção Memórias, p.223.

segunda-feira, agosto 01, 2005

Chatwin


«Aquele que não viaja não conhece o valor dos homens», disse Ibne Batuta, o infatigável viajante árabe, que foi dar uma volta à China e voltou, só pelo prazer. Mas a viagem não se limita a expandir a mente. Faz a mente. As nossas primeiras explorações são a matéria-prima da inteligência e, no dia em que escrevo isto, os organismos oficiais concluíram que as crianças presas em andares altos correm o risco de ficar mentalmente retardadas. Porque é que nunca ninguém pensou nisso?"
Bruce Chatwin, Anatomia da Errância, Quetzal Editores Lisboa/1997.