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sábado, janeiro 03, 2009
Choderlos de Laclos

Carta CXIII
A Marquesa de Merteuil ao Visconde de Valmont
(...) Não é verdade que as mulheres quanto mais velhas, mais ríspidas e severas se tornam. É dos quarenta aos cinquenta anos que o desespero de ver no rosto fanar-se, a raiva de se sentirem obrigadas a abandonar as pretensões e prazeres a que estão ainda presas, tornam quase todas as mulheres azedas e hipócritas. Precisam desse longo intervalo para fazer por inteiro esse grande sacrifício: mas uma vez consumado, dividem-se todas em duas classes.
A mais numerosa é a das mulheres que, nunca tendo tido mais do que beleza e juventude, caem numa apatia imbecil de que só acordam por causa do jogo ou de algumas práticas de devoção; estas são sempre ameaçadoras, muitas vezes impertinentes, às vezes um pouco intriguistas, mas raramente más. Nem se pode dizer se essas mulheres são ou não severas: sem ideias e sem consistência, repetem, sem compreender e indiferentemente, tudo o que ouvem dizer e conservam-se por si próprias absolutamente nulas.
A outra classe, muito mais rara, mas verdadeiramente preciosa, é a das mulheres que, tendo tido um carácter e não desprezando alimentar a razão, sabem criar-se uma existência quando a da natureza lhes falta; e tomam o partido de enfeitar o espírito com os ornatos que dantes empregavam para o corpo. Estas têm geralmente uma sã maneira de julgar, o espírito ao mesmo tempo sólido, alegre e gracioso. Substituem as graças sedutoras por uma bondade que prende, e ainda por uma alegria cujo encanto aumenta em proporção com a idade: é assim que conseguem aproximar-se da juventude e fazer-se amar por ela. Mas então, em vez de serem, como o seu amigo diz, ríspidas e severas, o hábito da indulgência, as longas reflexões sobre a natureza humana, e enfim, as recordações da juventude, os únicos laços que ainda as prendem à vida, colocá-las-iam talvez demasiado perto da facilidade.
O que lhe posso dizer é que tendo sempre procurado as senhoras idosas, de quem cedo achei útil a aprovação, encontrei muitas para quem me atraía tanto a inclinação como o interesse. Fico por aqui; porque como o meu amigo agora se inflama tão depressa e de forma tão moralona, tenho medo que se apaixone subitamente pela sua velha tia e que vá com ela a sepultar no túmulo onde afinal o Visconde já vive de há uns tempos a esta parte. Volto pois ao que me interessa. (...)
Choderlos de Laclos, As ligações perigosas, Livros Unibolso, p. 259 (tradução de João Pedro de Andrade e Alfredo Amorim).
A mais numerosa é a das mulheres que, nunca tendo tido mais do que beleza e juventude, caem numa apatia imbecil de que só acordam por causa do jogo ou de algumas práticas de devoção; estas são sempre ameaçadoras, muitas vezes impertinentes, às vezes um pouco intriguistas, mas raramente más. Nem se pode dizer se essas mulheres são ou não severas: sem ideias e sem consistência, repetem, sem compreender e indiferentemente, tudo o que ouvem dizer e conservam-se por si próprias absolutamente nulas.
A outra classe, muito mais rara, mas verdadeiramente preciosa, é a das mulheres que, tendo tido um carácter e não desprezando alimentar a razão, sabem criar-se uma existência quando a da natureza lhes falta; e tomam o partido de enfeitar o espírito com os ornatos que dantes empregavam para o corpo. Estas têm geralmente uma sã maneira de julgar, o espírito ao mesmo tempo sólido, alegre e gracioso. Substituem as graças sedutoras por uma bondade que prende, e ainda por uma alegria cujo encanto aumenta em proporção com a idade: é assim que conseguem aproximar-se da juventude e fazer-se amar por ela. Mas então, em vez de serem, como o seu amigo diz, ríspidas e severas, o hábito da indulgência, as longas reflexões sobre a natureza humana, e enfim, as recordações da juventude, os únicos laços que ainda as prendem à vida, colocá-las-iam talvez demasiado perto da facilidade.
O que lhe posso dizer é que tendo sempre procurado as senhoras idosas, de quem cedo achei útil a aprovação, encontrei muitas para quem me atraía tanto a inclinação como o interesse. Fico por aqui; porque como o meu amigo agora se inflama tão depressa e de forma tão moralona, tenho medo que se apaixone subitamente pela sua velha tia e que vá com ela a sepultar no túmulo onde afinal o Visconde já vive de há uns tempos a esta parte. Volto pois ao que me interessa. (...)
Choderlos de Laclos, As ligações perigosas, Livros Unibolso, p. 259 (tradução de João Pedro de Andrade e Alfredo Amorim).
segunda-feira, dezembro 29, 2008
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quinta-feira, outubro 09, 2008
Don DeLillo

Acordo. O grito ritmado das pombas. Tenho de me concentrar para tomar consciência de onde me encontro. Levanta-te, desperta para o mundo, abre as persianas. No jardim da Escola Inglesa, o apicultor, com o seu capuz de protecção, dirige-se a passo firme para as colmeias artificiais. Tiro do escorredouro a caneca do café e ponho a água a ferver. O Monte Himeto é uma sombra branca, manhãs de Verão, uma extensão nebulosa que se prolonga até ao golfo. Hoje é dia de mercado e anda um homem a correr atrás de pêssegos pela rua íngreme por baixo dos restaurantes em socalco. Uma carrinha de caixa aberta chocou com a dele, atirando uma quantidade de pêssegos pela borda fora, e estes vêm a rolar aos ziguezagues pelo asfalto. O homem está a tentar detê-los, correndo quase rente ao chão e fazendo movimentos circulares com o braço. Debaixo das amoreiras está um rapaz a lavar à mangueirada o chão dos restaurantes. No local onde as carrinhas chocaram continua uma grande gesticulação entre o condutor de um veículo e um amigo do homem que corre todo curvado. Um invólucro de Nescafé, um donut deitado fora. Está a tocar o telefone, o primeiro número errado do dia. Pombas pousando nos topos calmos dos ciprestes. Aparecem os homens do café da esquina, para ver rolar os pêssegos. Inclinam-se cuidadosamente para a rua, avaliando a situação com um ar muito sério, dispostos a não despender muito mais esforço nem gestos. Abelhas domésticas enxameiam na claridade poirenta.
Dirijo-me para o escritório, onde faço outra chávena de café e aguardo que o telex se me dirija.
Don Delillo, Os Nomes, Relógio D'Água, p. 52, (tradução de Maria Manuel Ribeiro)
Dirijo-me para o escritório, onde faço outra chávena de café e aguardo que o telex se me dirija.
Don Delillo, Os Nomes, Relógio D'Água, p. 52, (tradução de Maria Manuel Ribeiro)
quarta-feira, outubro 01, 2008
quarta-feira, setembro 24, 2008
terça-feira, agosto 19, 2008
quinta-feira, julho 31, 2008
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